Algumas pessoas me perguntam, outras especulam-me pelas costas o motivo de eu ser assim, mau como um pica-pau. Bom, tudo começou na tenra infância, quando botei a boca nos mamilos dos seios daquela gostosinha da minha mamãe. Travou-se dalí em diante uma disputa entre mim e meu pai que perdura até hoje. Agora tento devolver-lhe a velha, e ele não a quer mais. Percebi que pensar com a cabeça de hoje o futuro, o amanhã, é uma desgraça que começa de bebê, e revoltei-me com a sociedade como um todo, opressora, como papai.
Nota: A ironia é justamente isto: essa ultrapassagem do verdadeiro pelo real. No
fundo, atribuindo ironicamente a vida ao pai morto, o Homem dos ratos
mobilizou, sem que ele próprio soubesse, a equivalência do nome do pai e do
pai real da horda primitiva, o pai inquebrantável do gozo (SAURET, 1999, p.
9).
Monday, March 28, 2011
Friday, October 22, 2010
Wednesday, May 12, 2010
Virada Heróica Sobre o Santos - Histórica!

Eu tava lá, se não não acreditava... O Grêmio é imortal.
Borges marcou três vezes e deu início à reação gremista no segundo tempo
Foto: Lucas Uebel/Preview.com/Gazeta Press
Com grande atuação no segundo tempo, o Grêmio conseguiu um bom resultado no jogo de ida da semifinal da Copa do Brasil, nesta quarta-feira, no Estádio Olímpico: venceu o Santos por 4 a 3, em uma virada espetacular, e jogará pelo empate na partida de volta, na Vila Belmiro. Depois de ir para o intervalo perdendo por 2 a 0, o time gaúcho reagiu com três gols de Borges e um de Jonas. André (duas vezes) e Robinho descontaram.
O Grêmio começou a partida com três zagueiros, e Hugo na ala esquerda. O time não se acertou na nova formação e ameaçou só em um chute fraco de Adílson, facilmente defendido por Felipe, aos 4min. Melhor em campo, o Santos assustou Victor com uma finalização de longe de Marquinhos, mas o goleiro, preterido por Dunga na convocação para a Copa do Mundo, espalmou bem.
O time paulista abriu o placar aos 15min, após cobrança de escanteio de Marquinhos. Victor não saiu do gol e André apareceu sozinho na segunda trave para cabecear para as redes. Marcando muito mal, os gaúchos sofreram o segundo gol cinco minutos depois: lindo passe de Paulo Henrique Ganso, que teve ótima atuação, para André. Frente a frente com o goleiro, o centroavante santista tocou com categoria para fazer 2 a 0.
Depois do segundo gol, o técnico Silas mudou o desenho tático do Grêmio, movendo Edílson para a lateral esquerda, liberando Mário Fernandes na direita e devolvendo Hugo ao meio de campo em um 4-4-2. O time melhorou e assustou aos 22min, em bomba de Edílson de fora da área que Felipe defendeu com o pé; na sobra, Borges, sozinho, bateu cruzado para fora.
A chance de ouro para o Grêmio empatar veio no minuto seguinte, quando Durval derrubou Willian Magrão dentro da área. Porém, Jonas bateu mal o pênalti, no meio do gol, e Felipe defendeu. Sem se abalar com a cobrança desperdiçada, a equipe da casa passou a atacar mais. Aos 28min, Jonas rolou de calcanhar para a chegada de Adílson, que chutou em cima do goleiro santista. No rebote, Edilson chutou de esquerda, para nova defesa de Felipe.
O Santos explorava bem os contra-ataques. Aos 30min, Robinho poderia ter aberto a jogada para André, que estava livre na direita, mas bateu mal, por cima do gol. Dois minutos depois, Ganso quase marcou um golaço. O camisa 10 recebeu de Robinho na área e dominou mal, mas deu um lindo toque para encobrir Victor; a bola bateu no travessão e André não conseguiu concluir de cabeça no rebote.
Com 35min, o goleiro santista voltou a aparecer bem. Borges recebeu passe por trás da zaga e chutou de primeira, mas Felipe mostrou reflexo e fez uma grande defesa, garantindo a vantagem de dois gols até o fim do primeiro tempo.
O panorama no segundo tempo não se alterou: o Grêmio no ataque, buscando reverter a desvantagem, e o Santos esperando a chance de acertar um contragolpe. Aos 8min, Jonas girou na área e conseguiu chutar, mas Felipe, de novo, segurou firme. Dois minutos depois, foi a vez de Borges, em sua jogada característica, receber de costas para o zagueiro, girar e finalizar; porém, a bola foi na rede pelo lado de fora.
A pressão gremista deu certo. Aos 12min, Douglas dominou na área e Edu Dracena tentou desarmar o meia, mas acabou dando uma "assistência" para Borges, que fuzilou Felipe na pequena área e diminuiu para o time da casa. Seis minutos depois, o empate: Rodrigo Mancha perdeu a bola na intermediária defensiva, Douglas acionou Jonas na direita e o atacante cruzou para Borges, no segundo poste, deixar tudo igual no placar.
Dorival Júnior reagiu ao empate de forma drástica: sacou Rodrigo Mancha, que havia acabado de entrar, para colocar Rodriguinho. Depois de sair, o volante, muito irritado, esmurrou o banco de reservas. A substituição não fez efeito: aos 21min, Jonas soltou um foguete de fora da área, sem chances para Felipe, e conseguiu a virada.
O terceiro gol fez o Grêmio crescer no jogo, e Borges voltou a balançar as redes aos 31min. O centroavante recebeu passe de Jonas em posição legal, saiu frente a frente com Felipe e bateu com estilo no canto do goleiro para fazer 4 a 2.
O Santos, porém, não estava morto. Aos 38min, Ganso deu mais um passe espetacular, encontrando Robinho livre do outro lado da área. O atacante, nome certo na Copa do Mundo, matou no peito e chutou forte para estufar as redes de Victor, diminuindo a desvantagem para o jogo de volta. Nos minutos finais, o time paulista voltou a jogar no ataque, em busca do empate, mas não conseguiu vazar a defesa gremista.
FICHA TÉCNICA
Grêmio 4 x 3 Santos
Gols
Grêmio: Borges, aos 12min, 18min e 31min; Jonas, aos 21min do 2º tempo
Santos: André, aos 15min e aos 20min do 1º tempo; Robinho, aos 38min do 2º tempo
Ponto Forte do Grêmio
Não se abalou com a desvantagem de 2 a 0 no intervalo e fez um grande segundo tempo, com destaque para os três gols de Borges
Ponto Forte do Santos
Muita velocidade e eficiência nos contra-ataques, bem explorados durante toda a partida
Ponto Fraco do Grêmio
Início muito ruim, com a defesa atrapalhada no esquema 3-5-2 e Hugo deslocado para a ala esquerda
Ponto Fraco do Santos
Recuo excessivo no segundo tempo, principalmente após a saída de Marquinhos, substituído por Rodrigo Mancha - que deixou o campo logo depois para a entrada de Rodriguinho
Lance bizarro
Bolada de Léo na cara de Paulo Henrique aos 8min de jogo, que deixou o meia santista caído no gramado durante quase um minuto
Personagem do jogo
Borges, que comandou a virada do Grêmio com três gols no segundo tempo
Esquema Tático do Grêmio
3-5-2
Victor; Rodrigo, Ozeia e Mário Fernandes (Joílson); Edílson, Adílson, Willian Magrão (Fábio Rochemback), Douglas (Maylson) e Hugo; Jonas e Borges. Técnico: Silas
Esquema Tático do Santos
4-4-2
Felipe; Pará, Edu Dracena, Durval e Léo (Maranhão); Arouca, Wesley, Marquinhos (Rodrigo Mancha, depois Rodriguinho) e Paulo Henrique Ganso; Robinho e André. Técnico: Dorival Júnior
Cartões amarelos
Grêmio: Rodrigo, Ozeia, Adílson e Hugo
Santos: Durval, Léo, Robinho, Marquinhos e Arouca
Árbitro
Sandro Meira Ricci (DF)
Local
Estádio Olímpico, Porto Alegre (RS)
Público
38.473
Renda
R$ 819.403,00
Friday, April 30, 2010
A renúncia a títulos preestabelecidos
Em Madras, em 1947, aqueles que tinham contato com o homem Krishnamurti e com a essência de seus ensinamentos estavam perplexos com o fato de ele ter sido anunciado pela Sociedade Teosófica como sendo o Messias e o instrutor do mundo e ter renunciado a esse papel.
Krishnamurti tentou responder a essa questão contando uma história: "O diabo e um amigo estavam passeando quando viram, a sua frente, um homem abaixar-se e pegar algo brilhante do chão. O homem olhou para aquilo com deleite, colocou-o no bolso e continuou caminhando. O amigo perguntou: "O que aquele homem achou que o transformou tanto?" O diabo respondeu: "Eu sei, ele encontrou a verdade." "Por Deus!"- exclamou seu amigo: "Isto deve ser um mau negócio para você!". "De jeito nenhum"- o diabo respondeu com um sorriso malicioso: "Vou ajudá-lo a organizá-la, você vai ver só!"
Krishnamurti indaga: "Pode a verdade ser organizada? Você pode encontrar a verdade através de uma organização? Elas estão baseadas em diferentes crenças. Crenças e organizações estão sempre separando as pessoas, excluindo umas das outras. Você é um hindu e eu sou um mulçumano, você é um cristão e eu sou um budista. Crenças, ao longo de toda a história, atuaram como uma barreira entre os seres humanos. Nós falamos de fraternidade, mas se você tem uma crença diferente da minha, estou pronto para cortar sua cabeça; nós temos visto isso acontecer inúmeras vezes.
E prossegue; "A experiência de Deus deve ser experimentar por si mesmo. Ela não pode ser organizada. No momento que é organizada, propagada, ela cessa de ser verdade, ela se torna uma mentira. O real, o imensurável, não pode ser formulado, não pode ser colocado em palavras. O desconhecido não pode ser medido pelo conhecido, pela palavra. Quando você o mede, ele cessa de ser verdade, deixa de ser real e, portanto, é uma mentira".
Em Madras, em 1947, aqueles que tinham contato com o homem Krishnamurti e com a essência de seus ensinamentos estavam perplexos com o fato de ele ter sido anunciado pela Sociedade Teosófica como sendo o Messias e o instrutor do mundo e ter renunciado a esse papel.
Krishnamurti tentou responder a essa questão contando uma história: "O diabo e um amigo estavam passeando quando viram, a sua frente, um homem abaixar-se e pegar algo brilhante do chão. O homem olhou para aquilo com deleite, colocou-o no bolso e continuou caminhando. O amigo perguntou: "O que aquele homem achou que o transformou tanto?" O diabo respondeu: "Eu sei, ele encontrou a verdade." "Por Deus!"- exclamou seu amigo: "Isto deve ser um mau negócio para você!". "De jeito nenhum"- o diabo respondeu com um sorriso malicioso: "Vou ajudá-lo a organizá-la, você vai ver só!"
Krishnamurti indaga: "Pode a verdade ser organizada? Você pode encontrar a verdade através de uma organização? Elas estão baseadas em diferentes crenças. Crenças e organizações estão sempre separando as pessoas, excluindo umas das outras. Você é um hindu e eu sou um mulçumano, você é um cristão e eu sou um budista. Crenças, ao longo de toda a história, atuaram como uma barreira entre os seres humanos. Nós falamos de fraternidade, mas se você tem uma crença diferente da minha, estou pronto para cortar sua cabeça; nós temos visto isso acontecer inúmeras vezes.
E prossegue; "A experiência de Deus deve ser experimentar por si mesmo. Ela não pode ser organizada. No momento que é organizada, propagada, ela cessa de ser verdade, ela se torna uma mentira. O real, o imensurável, não pode ser formulado, não pode ser colocado em palavras. O desconhecido não pode ser medido pelo conhecido, pela palavra. Quando você o mede, ele cessa de ser verdade, deixa de ser real e, portanto, é uma mentira".
Sunday, February 14, 2010
O TOLO
É um tolo aquele que pede
ao homem tolo
que reconheça a sua tolice.
É inteligente aquele que conhece
a realidade do mundo
e ignora a do seu espírito,
Pois o espírito é uma luz
que não projecta sombra alguma
susceptível de te ajudar
a revelar a sua presença.
Al-Abbas Mahmoud Al-Aqqad
( Egipto, Assuão 1889-1964 )
ao homem tolo
que reconheça a sua tolice.
É inteligente aquele que conhece
a realidade do mundo
e ignora a do seu espírito,
Pois o espírito é uma luz
que não projecta sombra alguma
susceptível de te ajudar
a revelar a sua presença.
Al-Abbas Mahmoud Al-Aqqad
( Egipto, Assuão 1889-1964 )
HORTULUS SACER ( Extractos )
“... Eu nada sei, nada posso, apenas sou a sombra de um nome...”
“... Queres vir a ser alguma coisa ? Recorda-te, antes de mais, que nada és...”
“... Coisa espantosa ! De um tronco de árvore calcinada extrai-se o Sal, do Sal purificado, uma água espiritual. Que as águas sofram a acção do fogo e então renascerá um Sal de maravilha...”
“...Nenhuma outra via te conduzirá à Luz ; prossegue portanto o teu caminho através do fogo (...), pois com semelhante guia estarás em segurança. Porque o genitor da Luz é um fogo e se de alguma coisa te despojares na sua chama, considera isso um ganho incalculável...”
“... A mente ( mens ) faz vãos esforços para soerguer o pesado fardo da compreensão daquilo que é Eterno ; se apesar de tudo se obstina e se debate, perder-se-à e não logrará alcançar a sua finalidade : é necessário que cesse a sua busca. Se alguém continua a buscar, a aguardar, a implorar, a desejar com ansiedade, tampouco encontrará o Eterno e não realizará o seu ensejo...”
“... À mente ( mens ) tranquila, confiante, liberta do que é efémero, o Eterno revelar-se-à, à luz do Amor, na sua profundidade (...). Nisto consiste a verdadeira liberdade, a paz autêntica, a única coisa que merece o nome de felicidade...”
“... (neste estado) quem experimenta, compreende !”
“... Ó homem imortal ! Tu que te adormeces para a vida eterna ! De onde te veio tão profundo torpor ? Ergue-te, entreabre os olhos, expulsa o sono que te oprime...”
“...longe do bulício das multidões, protegido de mim mesmo, teço com afinco o fio da minha vida...”
“... Quando perece o velho Adão, um novo renasce ; quando a natureza ( sensível ) sucumbe, a Graça aproxima-se espontaneamente. Queres produzir uma nova natureza ? destrói a antiga ( pela alquimia espiritual ), pois se ela não for destruída, nunca, nunca uma nova vida despontará...”
“... apenas o Pneuma sagrado ( princípio espiritual ) renova verdadeiramente todas as coisas : quanto mais dele te aproximares, maior será a tua renovação. Queres converter-te numa Fénix ? Liberta-te do teu anterior existir...”
“...Aquele que se conhece a si mesmo, tornar-se-à ciente de muitas coisas secretas : o homem é um resumo do universo. Mas se este microcosmos encerra um abismo de trevas e de luz, quem ousará penetrá-lo e mergulhar nas suas profundezas ? A Razão, que depende inteiramente dos Astros, é incapaz de fazê-lo, mas a Mente ( mens ) pode fruir o que é Eterno. A Mente, contudo, nunca o conseguirá agindo por si, mas sofrendo-O ! – ( o Eterno como um fogo que purifica ). Portanto, no saber sofrer, eis toda a Arte...”
“... Atento ao que no meu interior se passa, as coisas de fora pouca importância têm ; durante esses momentos, eu sou livre e verdadeiramente feliz. O meu corpo oprimido permanece confinado ao seu estreito mundo, mas a mente ( mens ) santificada atravessa no seu voo um magnífico céu...”
“...A mente ( liberta do sensível ) sofre a deliciosa insinuação dessa luz e dessa vida que estão para além do perecível. Então se revela o casto amor, no qual a mente ( purificada)
celebra a sua união, tal como se une ao imenso oceano a pequena gota que nele se funde...”
“...Fora deste centro, não há repouso possível. Neste único centro, a liberdade, a quietude, a paz e todos os bens se fundem ; a mente ( mens ) só é verdadeiramente livre neste centro imutável...”
“... A minha Musa aqui se cala...”
“... Queres vir a ser alguma coisa ? Recorda-te, antes de mais, que nada és...”
“... Coisa espantosa ! De um tronco de árvore calcinada extrai-se o Sal, do Sal purificado, uma água espiritual. Que as águas sofram a acção do fogo e então renascerá um Sal de maravilha...”
“...Nenhuma outra via te conduzirá à Luz ; prossegue portanto o teu caminho através do fogo (...), pois com semelhante guia estarás em segurança. Porque o genitor da Luz é um fogo e se de alguma coisa te despojares na sua chama, considera isso um ganho incalculável...”
“... A mente ( mens ) faz vãos esforços para soerguer o pesado fardo da compreensão daquilo que é Eterno ; se apesar de tudo se obstina e se debate, perder-se-à e não logrará alcançar a sua finalidade : é necessário que cesse a sua busca. Se alguém continua a buscar, a aguardar, a implorar, a desejar com ansiedade, tampouco encontrará o Eterno e não realizará o seu ensejo...”
“... À mente ( mens ) tranquila, confiante, liberta do que é efémero, o Eterno revelar-se-à, à luz do Amor, na sua profundidade (...). Nisto consiste a verdadeira liberdade, a paz autêntica, a única coisa que merece o nome de felicidade...”
“... (neste estado) quem experimenta, compreende !”
“... Ó homem imortal ! Tu que te adormeces para a vida eterna ! De onde te veio tão profundo torpor ? Ergue-te, entreabre os olhos, expulsa o sono que te oprime...”
“...longe do bulício das multidões, protegido de mim mesmo, teço com afinco o fio da minha vida...”
“... Quando perece o velho Adão, um novo renasce ; quando a natureza ( sensível ) sucumbe, a Graça aproxima-se espontaneamente. Queres produzir uma nova natureza ? destrói a antiga ( pela alquimia espiritual ), pois se ela não for destruída, nunca, nunca uma nova vida despontará...”
“... apenas o Pneuma sagrado ( princípio espiritual ) renova verdadeiramente todas as coisas : quanto mais dele te aproximares, maior será a tua renovação. Queres converter-te numa Fénix ? Liberta-te do teu anterior existir...”
“...Aquele que se conhece a si mesmo, tornar-se-à ciente de muitas coisas secretas : o homem é um resumo do universo. Mas se este microcosmos encerra um abismo de trevas e de luz, quem ousará penetrá-lo e mergulhar nas suas profundezas ? A Razão, que depende inteiramente dos Astros, é incapaz de fazê-lo, mas a Mente ( mens ) pode fruir o que é Eterno. A Mente, contudo, nunca o conseguirá agindo por si, mas sofrendo-O ! – ( o Eterno como um fogo que purifica ). Portanto, no saber sofrer, eis toda a Arte...”
“... Atento ao que no meu interior se passa, as coisas de fora pouca importância têm ; durante esses momentos, eu sou livre e verdadeiramente feliz. O meu corpo oprimido permanece confinado ao seu estreito mundo, mas a mente ( mens ) santificada atravessa no seu voo um magnífico céu...”
“...A mente ( liberta do sensível ) sofre a deliciosa insinuação dessa luz e dessa vida que estão para além do perecível. Então se revela o casto amor, no qual a mente ( purificada)
celebra a sua união, tal como se une ao imenso oceano a pequena gota que nele se funde...”
“...Fora deste centro, não há repouso possível. Neste único centro, a liberdade, a quietude, a paz e todos os bens se fundem ; a mente ( mens ) só é verdadeiramente livre neste centro imutável...”
“... A minha Musa aqui se cala...”
CONTOS DE FADAS
Desenvolvimento humano, arquétipos e meditação activa
Contos de Fadas – fairy tales ou contes de fées – são narrativas arquetípicas que remontam à origem dos tempos e que têm como inspiração espiritualidades vivas. São histórias que descrevem, numa linguagem simbólica e cheia de sageza, o que importa acontecer iniciaticamente no ser humano, como seja a renovação da sua vida interior, a transformação profunda da percepção e do entendimento, e uma relação verdadeiramente compassiva para com a sociedade e o cosmos.
Os Contos de Fadas relatam, pois, a experiência do que acontece quando se ultrapassa a fronteira da consciência condicionada e ilusória, que é o “eu” psicológico, com os seus fantasmas, mitos e medos, os quais, no dizer dos antigos sábios, não passam de meros jogos de sombras e de tigres de papel.
Por isso, tanto no Ocidente como no Oriente, a Meditação encontra algumas das suas chaves de maior significado prático nas narrativas dos Contos de Fadas, que apontam imageticamente para a prática ancestral de espiritualização activa, a qual se traduz – quando correctamente aplicada – por uma mutação diária e constante da consciência de si mesmo e do mundo, o que equivale a ver com novos olhos o ciclo do nascimento, da vida e da morte. V.Q.
O construtor de sonhos e a viagem através do Ser
A humanidade é um construtor de mitos e de imagens, ou seja, um construtor de sonhos a partir das suas memórias. Ao nível pessoal, cada um constrói o seu mito que é o seu álbum de fotografias. Todos escrevemos deste modo o nosso conto da fadas, paralelo à realidade e baseado nas nossas memórias. É a história de um herói, de uma heroína de “mil faces” que cada um é e com o qual cada um se identifica.
Assim, nos Contos de Fadas tradicionais, o herói somos sempre nós e é por isso que as crianças adoram estes contos, identificando-se com o herói. Os adultos já não reagem com o mesmo encantamento porque não entram na fantasia do conto. Há, contudo, uma ligação do Conto de Fadas à psicoterapia, uma vez que aquele permite de encontrar em nós o herói positivo e desenvolver com imaginação a nossa história pessoal, descobrindo que afinal somos nós o autor desta história ficcionada. Assim podemos reavaliar o percurso da nossa história de vida. O psicodrama infantil utiliza os contos com a mesma finalidade. A criança tem muita facilidade de identificar-se sucessivamente com todos os protagonistas dos contos, uma vez que os contos tradicionais têm sempre uma componente mágica, transformando o real em sonho lúcido que permite construir e desconstruir a história ao nosso bel-prazer.
Os Contos de Fadas proporcionam assim uma viagem através do Ser. Todos os povos têm um património de Contos de Fadas e do maravilhoso, que configura um potencial redentor e de gnose, um imaginário libertador pré-religioso, onde o ser humano é o herói da transformação da sua própria vida. Os Contos de Fadas, ao invés das fábulas, por exemplo, não são edificantes, não têm happy end e não pregam a moral de uma determinada sociedade. Podem ser muito cruéis como a própria vida. “O Barba Azul”, por exemplo, fala do exercício do poder pessoal e do prazer em matar; “A Princesa Pele de Burro” fala de uma filha que tenta libertar-se do desejo incestuoso do pai. Os contos demonstram que somos capazes de superar os maiores obstáculos, desvelando o sentido ético da vida, o bem e o belo que apenas se pode descobrir através da experiência própria, no fundo do nosso coração. A auto-descoberta não é um bem pré-formatado, é algo que está em cada um, é a componente ética e libertador em cada um.
A origem dos Contos de Fadas
Todos os contos baseiam-se, originalmente, na transmissão oral. Só muito mais tarde, nos séculos XVIII e XIX, alguns autores franceses e alemães – Perrault, os irmãos Grimm e depois Andersen – configuraram-nos em antologias, misturando-os com fábulas morais e contos de salão. Perrault ainda conserva algo da crueldade original dos contos, os irmãos Grimm já os tratam num registo literário ao passo que Andersen cria contos modernos. Apenas cinco por cento de todos estes contos são Contos de Fadas verdadeiros. Os contos tradicionais portugueses reflectem a época da ocupação árabe da Península Ibérica. Os mouros surgem neles como não-cristãos odiosos, ao passo que às mouras é sempre dado um grande poder de sedução. As “mouras encantadas” são vistas como um perigo, como sedutoras dos cristãos. Prevalece assim a componente repressiva e moral nestes contos e não há tradição feérica e mágica nos contos portugueses. Falta em Portugal este imaginário do sonho transformador e libertador, da demanda original do ser humano. Esta tradição chegou a Portugal apenas em segunda mão, é importada. Mesmo os Templários portugueses não herdaram esta tradição, são uma espécie de cavaleiros de segunda, servindo apenas como carne para o canhão nas cruzadas e na expulsão dos árabes. A tradição trovadoresca, por outro lado, passa pelos Contos de Fadas, e neles se refugiam os mitos do herói corajoso que leva à frente a sua demanda. Os Contos de Fadas reflectem a ordem mitificada de uma sociedade original que é transfigurada para todos os tempos e permite a identificação com uma multiplicidade de papéis para que cada um possa auto-conhecer-se neles como num espelho. São narrativas fora do tempo com uma função redentora, onde a aventura humana não tem princípio nem fim, é eterno e atemporal. Neles podemos descobrir o que é o não-tempo, o Ser fora do tempo sequencial e cronológico. O “Era uma vez…” suspende o tempo cronológico e psicológico. Daí a sua ligação à meditação que é o não-tempo que podemos descobrir em nós.
Por outro lado, os Contos de Fadas convocam também o problema da ilusão – os nossos sentidos enganam-nos, a nossa percepção, em vez de observar, isenta, a realidade, interpreta-a, iludindo-nos com mesclas de realidade / ilusão que se podiam chamar o Yin e Yang da percepção. Assim, os Contos e Fadas são narrativas de origem oral para adultos que transmitem a gnose e sageza originais, popularizando os grandes mitos de origem, vindos das Escolas de Iniciação e que correspondem à aventura humana, ao percurso de demanda, de auto-descoberta e auto-realização do ser humano. Estas Escolas, inicialmente, encenavam estes princípios arquetípicos do ser humano, encenações que se tornaram a base de todas as civilizações, transmitindo um potencial de sageza antiga de geração em geração.
Contos da Fadas e auto-descoberta
Através deles podemos descobrir o nosso próprio Conto de Fadas e o elemento transfigurador em nós, o não-tempo. Podemos também descobrir o que é a morte, o que é o momento de morrer e a revisão da vida em dois ou três minutos da qual falam os que voltaram à vida depois de uma experiência de quase morte. Quando a vida biológica está em ruptura, o cérebro tenta dar sentido à experiência da vida. Descobre-se então que contamos a nossa história de vida a nós mesmos e que olhamos a nossa vida como se fosse a história de um herói, retendo o que é significativo e sublime. Esta síntese do conto da nossa vida tem a mesma estrutura que um Conto de Fadas, ou um sonho lúcido, com o qual queremos dizer algo a nos mesmos. Ambos são histórias de metamorfose e transformação. É por isso, que tanto na Bíblia como nas sociedades antigas através dos xamãs, a interpretação dos sonhos era para as comunidades um potencial a explorar. A beleza dos três minutos no momento do morrer é como o resumo do sublime da vida. Este happy end depende do que fazemos da nossa demanda de sentido ao longo da vida. Com entendimento intuitivo, podemos explorar o nosso “projecto de vida” como herói / heroína.
A Princesa Pele de Burro
Uma princesa de cabelo louro e pele branca é filha de um rei que tinha uma paixão louca pela rainha, a mãe da princesa. Este triângulo de relacionamento está muito feliz até à morte da rainha. No leito da morte, o rei jura-lhe fidelidade eterna, apesar de a rainha lhe pedir para se casar de novo. Entre todas as candidatas que se apresentam nenhuma igualava a rainha morta, da qual o rei continuava a ter grandes saudades. Quando a filha se tornou numa adolescente muito parecida com a mãe, o rei apaixona-se por ela e quer substituir a mãe pela filha. Esta, contudo, tinha uma fada que a protegia e a ajuda a encontrar uma solução para que o rei não caia na tentação. Diz à princesa para pedir coisas inverosímeis ao rei, para que o casamento pedido pelo pai fosse sempre adiado. A filha pede-lhe assim, em primeiro lugar, um vestido de cor da Lua, depois um da cor do Sol e finalmente, sabendo que o rei tinha um burro mágico pelo qual tinha grande afeição, a filha pede-lhe um vestido feito da pele deste burro. O rei mata então o burro e manda fazer um vestido da pele. A princesa envolve-se neste vestido que a torna muito feia e foge da corte, levando todos os vestidos consigo. Inicia então uma longa peregrinação até chegar a um outro reino onde, numa quinta, encontra uma família que a aceita como servente, apesar da sua fealdade. Durante o dia cumpre todo o serviço que lhe é pedido e à noite, no seu quarto bem fechado, veste os vestidos que trouxe consigo, transfigurando-se face ao espelho. Neste reino onde agora vivia, o rei andava à procura de uma noiva para o seu filho. Os mensageiros de todo o mundo propuseram-lhe as mais diversas princesas, mas o príncipe não gostava de nenhuma. Um dia o príncipe visita a quinta onde vive a princesa. Era ao fim do dia e a princesa já se tinha retirado. O príncipe vê então uma luz esplendorosa por baixo da porta e não resiste e encosta o olho ao buraco da fechadura. No quarto vê a princesa no seu vestido solar. Mas quando abre a porta, descobre apenas uma rapariga feia vestida de pele de burro. O príncipe não consegue esquecer a visão deslumbrante da mulher que viu e apaixona-se pela sua visão. Não sabe onde encontrar a mulher que viu e fica doente. O rei seu pai, para o ajudar, recorre então a uma artimanha. Pede à rapariga feia que faça um bolo para o seu filho. A princesa faz o bolo à noite no seu quarto, envergando um dos seus vestidos. Transfigurada de novo, um anel cai-lhe no bolo. Quando lhe trazem o bolo, o príncipe recupera o apetite, come o bolo e trinca um anel fabuloso e muito delicado. Declara então que apenas se vai casar com a dona do anel. A nenhuma das princesas que se apresentam o anel cabe nos dedos. Finalmente é chamada a rapariga da quinta. Da sua pele de burro sai então uma mão muito delgada e fina e quando enfia o anel, a pele de burro cai e ela apresenta-se em todo o seu esplendor. O príncipe casa então com ela. Entretanto o pai que tinha ficado muito triste depois do desaparecimento da filha, casou com uma rainha viúva sem que esta lhe inspire um verdadeiro amor. Quando recebe o convite para assistir ao futuro casamento da filha, supera a sua pulsão incestuosa, desiste das suas fantasias e faz as pazes com a filha.
Realidade e ilusão
Como este, muitos dos Contos de Fadas exorcizam certas transgressões que põem em perigo o funcionamento normal da sociedade. Contudo, esta dimensão social do conto remete sempre para algo de feérico, algo em cada um de nós que é este monstro feio no qual a princesa se transformara, pois há algo em nós que se sente atraído pelo monstruoso. Por outro lado, isto remete ao facto que a percepção que temos de realidade não corresponde sempre à verdade. O conto em questão, como aliás muitos outros, cria um triângulo arquetípico:
Reino
Rei Rainha Céu
Princesa Fogo / Ar
(Vénus)
Este reino, por sua vez, espelha-se num outro, cumprindo a máxima hermética “O que está em cima é como o que está em baixo”.
Príncipe Água / Terra
(Marte)
Rei Rainha Terra
Reino
A relação entre ambos os reinos é estabelecida pela princesa e pelo príncipe sobre o fundo de um repertório mágico-astrológico, que corresponde a instâncias em nós que impõem uma nova ordem. Trata-se, neste conto, de dois reinos diferentes, o primeiro é lunar e crepuscular, o segundo solar e auroral. Na base, contudo, está o problema da sedução e do desejo. A princesa transita entre ambos os reinos, dispondo de um pacto íntimo com os quatro elementos, representados pelos quatro vestidos, utilizando o imaginário alquímico. A sua viagem de um reino para o outro simboliza o percurso interno da vida e da organização dos três princípios de expressão arquetípicos em nós, a inteligência intelectual, a inteligência emocional e a inteligência psicomotora.
A floresta de todos os enganos
Doutro conto, “O Capuchinho Vermelho” são transmitidas duas versões. Numa, o lobo é um monstro terrível noutra, um animal obediente e submetido ao ser humano. O lobo é assim altamente ambivalente nos Contos de Fadas e possibilita espelhar a natureza ambígua do ser humano no seu constante lusco-fusco. A floresta, por sua vez, presente em muitos contos e sonhos, reflecte aquilo em nós que é o desconhecido, o local de todos os perigos, ameaças e riscos. É o lugar de riscos de perda, de encontros sombrios e lunares, do confronto com os monstros. Simboliza assim a consciência psicológica na sua ressonância crepuscular e ilusória, o que C.G. Jung chamou e inconsciente colectivo. Aí jogam-se os grandes dramas da consciência humana, ela é a matriz da luta entre luz e sombra, entre vida e morte, entre todas as dualidades e da divisão binária fundamental entre luz e trevas. Serve como proposta arquetípica da divisão lunar e solar, entre uma parte que se mostra e outra que se esconde. Nela jogam-se todas as contradições. Trata-se de um inconsciente não localizável no ser humano. É uma espécie de estrutura de fronteira entre a vigília e o sonho que propõe material de “floresta” à nossa experiência, onde nos podemos perder. Os Contos de Fadas pega na nossa floresta pessoal, na nossa sombra e dá-lhe uma estrutura organizada.
Contos de Fadas e matrizes peri-natais
O cérebro utiliza o sonho para reorganizar a experiência de vigília. Durante esta última e com a ajuda das redes neurónicas focamos apenas dez por cento, ou seja, apenas um ângulo muito pequeno desta experiência que, além disso, é fortemente viciada pelo condicionamento dos traumas do nascimento ( matrizes peri-natais formuladas por Stanislav Groff), da educação e da formatação social. Os Contos de Fadas e o seu imaginário psico-genético estão inscritos em cada um de nós através das experiências pré-natais e de vida. A criança, no ventre da mãe, nada no líquido amniótico que é uma espécie de amplificador de todos os sons. Assim o feto tem perfeita consciência de tudo o que se passa à sua volta. Durante os nove meses de gestação passa por quatro fases:
1 - Sentimento oceânico onde se sente como no paraíso, altamente protegido num equilíbrio homoestático.
2 - No momento da ruptura das águas é exposto a uma tensão de insegurança absoluta e é ameaçado de ser expulso do estado de segurança anterior.
3 - No momento das contracções regista uma enorme angústia e passa por uma experiência traumática que é origem de todos os medos e especialmente do medo do escuro. A passagem pelo colo do útero no processo de dilatação é o primeiro encontro com a ameaça da morte.
4 - A última fase do nascimento propriamente dito é o confronto com um mundo desconhecido.
A segunda e terceira fases são as mais problemáticas e são estas que são exploradas nos Contos de Fadas. Dai a grande crueldade de alguns deles, onde os traumas do feto repercutem. A demanda repete, de certa maneira, as fantasias e episódios do trajecto pré-natal, que condiciona toda a psique do ser humano. As suas alegrias e os seus medos, assim como toda a sua estrutura emocional estão lançados através deste trajecto. A hipnose é capaz de nos fazer regressar a estas fases. As psicoses são o retorno às matrizes pré-natais. A importância da estrutura arquetípica dos Contos de Fadas se confirma ainda se realizamos que nascimento e morte têm matrizes semblantes, que o trajecto da morte inverte as quatro fases como se fossem vistas num espelho. Ela é um nascimento ao contrário que precisa de um guia, de uma parteira. Na morte podemos eventualmente ser confrontados com todas as traumas que vivemos no nascimento, sendo ela uma espécie de segundo nascimento e ambos um percurso de dentro para fora. Os Contos de Fadas simbolizam nas suas figuras, na bruxa, no lobo, no logre, etc. etapas deste percurso.
“A mãe Holle”
As duas raparigas deste conto são antagónicas, são luz e sombra no ser humano. A loira (solar) irradia, está completamente aberta ao meio, disponível a trocas que enriquecem e potenciam a interacção com o mundo, é corajosa e vive o máximo do seu potencial generoso. A outra, morena (lunar), é altamente auto-centrada, fechada sobre si mesmo e predadora nas relações. Utiliza as relações como estratégia de sobrevivência, divide as pessoas em amigos e conhecidos, nos que dão algo e nos que se têm apenas de aturar. Por isso está distraída, sem verdadeira capacidade ao diálogo e de interacção com o meio. Vive apenas uma parcela mínima do seu potencial. O alcatrão que lhe cai em cima ao fim da sua experiência é a “noite de breu”. A generosidade, a gratidão e a superação do medo ou seja, a coragem, são os elementos de redenção neste conto. A demanda é a viagem através do campo de experiência da nossa vida que desafia para esta superação.
O percurso iniciático
O percurso iniciático descrito pelos Contos de Fadas segue o dos grandes mitos e lendas, por exemplo o da Lenda do Rei Artur, ou seja, da demanda do Graal. Nesta encontra-se, no fim do trajecto, um objecto abençoado, um elemento de redenção crístico. As iniciações repetiam simbolicamente este processo num espaço sacralizado com várias provas e a respectiva superação que leva à iniciação. O sonho lúcido é um sonho organizado que pode ter a mesma estrutura. Os avateres seguem este percurso como o faz Cristo na morte na cruz e na ressurreição.
No conto “Os Músicos de Bremen” descobrem-se as diferentes fases deste percurso. Trata-se de quatro animais ameaçados de morte que fogem para sobreviver. O burro simboliza o elemento Terra, a psico-motoricidade, o metabolismo, a capacidade de agir e realizar, a vontade. O cão é do elemento Água e representa a esfera da inteligência emocional, sendo o símbolo da fidelidade. O gato é do elemento Ar e simboliza a inteligência cognitiva. O galo, finalmente, é do elemento Fogo, simbolizando o despertar, sendo um animal de fronteira entre dois mundos, entre noite e dia, o anunciador do ciclo solar, relacionado à esfera do quarto cérebro, a dimensão da redenção no ser humano. Ele é o potencial criativo em nós, o herói que aceita o risco e enreda pelo percurso iniciático.
Os três níveis de inteligência do Ser Humano
Em cada nível de inteligência do ser humano há elementos solares e lunares, há expansão e contracção. Os três níveis são as estruturas conflituais em permanente movimento e oscilação entre centro e periferia, entre extroversão e introversão, numa dinâmica bipolar face às circunstâncias. Quando nos sentimos seguros, abre-se o jogo, quando sentimos perigos ou ameaças fechamo-nos e perdemos as capacidades comunicativas em todos os três níveis. Ao nível do pensamento, fechamo-nos nas nossas opiniões; ao nível de emoções, respondemos com grande reactividade; ao nível psico-motor há um bloqueio total.
É preciso detectar as razões para o medo, para a insegurança, para o corte de comunicação. Os Contos de Fadas permitem localizar e exorcizar estas razões. Vejamos a história “Os Três Porquinhos”.
Para os três porquinhos se protegerem contra o lobo da floresta o primeiro constrói uma casa de palha onde toca flauta; o segundo constrói uma casa de madeira onde toca violino, o terceiro constrói uma casa de tijolo onde toca piano. O lobo derruba facilmente as duas primeiras casas, na terceira tenta entrar pela chaminé, cai num grande caldeirão de água quente e acaba de ser comido pelos três porquinhos. As três casas e instrumentos correspondem, respectivamente, a primeira, à inteligência cognitiva, a segunda, à inteligência emocional, a terceira, à inteligência pisco-motor e visceral. Esta última é a estrutura mais fiável. É o centro que nas artes marciais se chama Hara, o ponto mais sólido que temos em termos psicológicos. Esta inteligência visceral é a base de toda a nossa estrutura, é a nossa casa que permite a sobrevivência. O piano é-lhe agregado como instrumento de grande escala, de percussão e ritmo, simbolizando o verbo ou seja, a acção. O violino é o instrumento emocional por excelência, permite tocar melodias e entrar em interacção com outros, adjectivando. A flauta é o instrumento mais primitivo que simboliza a harmonia e imaginação, ligado ao substantivo. O primeiro porquinho vive na ansiedade de expectativas, produzindo ilusões fantasmagóricas para perpetuar a vida num futuro imaginário. O terceiro porquinho está no passado, vincula-se à memória lunar. Tem uma atracção especial para a sua própria história que é puramente ficcional na sua interpretação subjectiva do como reagiu aos acontecimentos. O segundo porquinho vive o presente e está ligado ao sentir, ao imediato de uma linguagem não verbal. A palavra é um lugar seguro e pode servir como trampolim para a descoberta do desconhecido, pode abrir a passagem do verbal ao não-verbal.
Os Contos de Fadas transmitem uma sageza intuitiva e não científica que conhece perfeitamente a tripartição do campo da consciência psicológica do ser humano. Esta dá apenas para a sobrevivência ao passo que por detrás dela está o próprio Ser, a proposta de transformação da estrutura biológica em ser individual. Neste sentido pode dizer-se que todos têm uma vida, mas poucos são. Nos Contos de Fadas é o herói ou a heroína que andam à procura do Ser, no percurso que atravessam procuram o seu próprio ser, uma vez que não basta ter uma vida, é preciso ser. A pergunta que põem é: será que sou mais do que a minha vidinha, que sou mais do que a minha experiência vivida?
Estado de Atenção
A diferença está no estado de Atenção, ele permite ver se agimos em termos de vidinha ou em termos do Ser. Jung chamava a isso o processo de individuação, um processo não previsto pela natureza. Graças ao estado de Atenção é possível despertar o Ser, transformar o ter em ser. Este estado acontece no AGORA sem que haja expectativas de um futuro fantas-magórico, nem distracção com as memórias. O estado de Atenção dá-se no presente e relaciona-se com o sentir numa percepção imediata no AGORA sem que haja espaço para reactividade. É a zona do coração que é compatível com o estado de Atenção, livre do passado e do futuro. O herói / a heroína situam-se neste espaço, avançam passo por passo num processo de constante transformação e mutação sem jamais distrair-se com o passado ou sonhar com o futuro. Viver assim é a única maneira de experimentar o Ser. Se cairmos na distracção e nas expectativas, apenas sobrevivemos. Os Contos de Fadas indicam assim o elemento central do processo, o sentir no presente (o violino na história “Os Três Porquinhos”). O estado de Atenção é total disponibilidade que, por sua vez, traz o silêncio para escutarmos e sentirmos sem interpretação psicológica. Trabalhamos então com uma linguagem imediata e intuitiva que permite sentir o outro, o espaço e o meio.
O verdadeiro Despertar
Os Contos de Fadas explicam a relação entre símbolo e a natureza humana no seu comportamento psicomental. Não existe perfeição nestas três estruturas de sensação, isto é um mito. O comportamento ético face às situações surge por dentro em cada momento. É a voz do galo no conto “Os Músicos de Bremen”, o “sei que não sei” face aos desafios, é algo em nós que se apercebe quando a noite se transforma em dia. À noite estamos adormecidos e sonhamos num nível inconsciente, no dia despertamos deste mundo lunar que se exprime apenas por memórias e expectativas. A questão é de despertar verdadeiramente e viver em estado de Atenção. Se nos tornamos conscientes da nossa noite, se a conhecemos, a transformação pode fazer-se. Assim o galo é discernimento e o estado de Atenção. Este é o elemento que transforma a noite em dia, uma vez que permite ver a noite e o dia simultaneamente, ao passo que, distraído, estou ou na noite ou no dia. Este estar entre dia e noite ultrapassa a dualidade.
Em conflitos, por exemplo, o estado de Atenção permite colocar-se num ponto por além das duas partes do conflito, age-se então sem justificação, sem emoções reactivas e sem defesa do seu próprio território. Deste modo não se alimenta o conflito, fazendo dele um problema. Neste contexto percebemos que o nosso espaço interior não tem geometria definida, é um espaço sem contornos em constante configuração.
O tempo suspenso
O conto “A Bela Adormecida” coloca sobretudo o problema do tempo. Quando a princesa adormece, o tempo fica suspenso. Já encontramos, no conto “A Princesa de Pele de Burro”, outro sinal deste não-tempo no seu vestido do tempo. A paragem do tempo significa silêncio que nos coloca por além do campo da consciência psicológica. O príncipe (e o galo) anuncia o dia como não-tempo. O campo de consciência psicológica serve apenas para a sobrevivência, a consciência anunciada pelo príncipe é o próprio Ser como proposta de transformação da estrutura biológica em Ser individual. Todos podem ter uma vida, poucos são. Nos Contos de Fadas, o herói anda à procura do Ser, de ser ele próprio no percurso que atravessa. Não basta ter uma vida, é preciso ser. Põe-se então a pergunta se somos mais do que a nossa vidinha, mais do que a nossa experiência de vida.
O estado de Atenção permite ver se agimos em termos de vidinha ou em termos de Ser. Descobrimos então o processo de individuação, processo que não está previsto pela natureza. Este despertar, pelo beijo, do estado de atenção transforma o ter em Ser.
A transgressão do pacto de obediência
Por outro lado, o sangue no conto “A Bela Adormecida” que jorra de um dos seus dedos, é uma referência à primeira menstruação, um fenómeno biológico que adquire valor simbólico como aliás, nos contos, todas as cores representarem estados de espírito. O vermelho (Capuchinho Vermelho) está ligado a Marte, ao sangue, ao desejo e à vontade. Remete para o desejo de transgressão que é o pecado original, o transgredir do pacto de obediência que permite crescimento, não é visto como um mal, mas como transgressão das normas que impedem o crescimento. É o Capuchinho Vermelho que seduz o lobo e o lobo come a avó que representa a norma social. Em “A Branca de Neve” e em “A Bela Adormecida”, o beijo é o toque mágico que desperta para a vida e o príncipe iguala, em termos simbólicos, o galo. São ambos o princípio activo que anuncia o dia, a luz solar que anima as três zonas de sensação, representadas pelas princesas.
A floresta, nos Contos de Fadas representa a primeira e a segunda zona de sensação que, no Tarot, correspondem à carta do Diabo que é Lúcifer, o anjo caído. Ele introduz a curiosidade, o desejo activo do conhecimento. Este desejo, muito presente nos Contos de Fadas, está ligado ao sentir e leva à transgressão. A repressão do desejo empobrece a vida, deixamos de ser o herói se desistimos do desejo e funcionamos apenas no registo de um animal de hábitos.
A força do desejo
No conto “João e o Pé de Feijão”, o jovem rapaz é, aos olhos do mundo, um simplório que vive a sentir as coisas. A mãe pede-lhe para vender no mercado a única vaca que têm, porque já não têm com que alimentar-se. No mercado oferecem-lhe em troca da vaca um saquinho com três feijões mágicos. Curioso como é, João aceita esta troca. De regresso à casa, onde a mãe se zanga muito com ele, João planta os feijões no jardim. Durante a noite cresceram, formando uma escada que João vai subindo, obedecendo ao seu desejo de ver o que está lá em cima, de descobrir o desconhecido, o mistério da vida. Chegado às nuvens, encontra um gigante terrível que o ameaça. Depois de várias peripécias João consegue fugir, levando o tesouro do gigante.
Quando o desejo pode fluir livremente, permite-nos ser, ou seja, sentir cada momento. Ele é uma força de libertação, uma força indomável.
É o desejo alimentado pela curiosidade que propõe a viagem pessoal. Mas desde a nossa infância alguém nos diz constantemente: atenção com os perigos, é melhor não ires, não fazeres isto ou aquilo. Os riscos surgem sempre da floresta (do nosso inconsciente), que nos descrevem como lugar de todos os perigos e da escuridão. Contudo, a floresta é fabulosa, propõe mil aventuras e nós precisamos do sentido de aventura, sem ele o herói não pode florescer em nós. Não podemos cortar o desejo em nós, não podemos recalcá-lo e apenas imaginar a viagem. Nascemos para a nossa viagem pessoal e temos de descobrir a cada momento o desejo de sentir a viagem e o desejo de intuir o silêncio. É o desejo indomável do qual brote a criação do mundo e os nossos sentidos são os veículos da viagem, não devemos excluir nada da nossa experiência.
É o galo que representa este desejo ligado ao elemento de fogo. O mito de Prometeu é-lhe dedicado e indica que o desejo é transgressão e desobediência mesmo contra os deuses. O fogo que Prometeu vai roubar aos deuses é o desejo indomável, sem ele não há vida. Por outro lado, há uma sageza do desejo que assenta na compaixão, deixando intuir o movimento do desejo para que não sejamos crucificados entre o passado e o futuro. O que intui não é “história de vida” – o desejo em directo é uma experiência que não deixa resíduos, é uma experiência sem apropriação. É na apropriação que matamos a experiência e o sentir. Se não nos apropriamos dela produz-se apenas aprendizagem e não uma memória fantasmática do actor. Deste modo, o eu não acumula. Quando nos apropriamos da experiência, criamos memória, aprisionando e dominando o outro no nosso ódio ou no nosso amor. O herói dos Contos de Fadas é o desejo no ser humano. Para a vida ser viagem de conhecimento temos de pôr as três zonas de sensação ao serviço da consciência intrínseca.
Transmissão directa
O trabalho com a tradição oral permite uma transmissão directa que apoia a luta contra o esquecimento que ameaça permanentemente o trabalho sobre si mesmo. É um trabalho tremendamente volátil, uma vez que as nossas neuroses não permitem acumular informação, que se baseia na percepção em estado de Atenção. A transmissão directa é um sistema de trabalho que desperta no outro algo, uma natureza adormecida, que está em cada um. É esta instância adormecida que pode despertar é, não se pode acrescentar nem tirar nada ao Ser. Há em nós um jogo do Ser e Não-Ser. Ele é “A Bela Adormecida” em nós que desperta através do sentir, da sensação directa associada ao estado de Atenção. Ser é a forma de nos relacionarmos directamente com as coisas, sem julgamento, sem adjectivação, comparação e sem condicionamento em pura experiência do presente – as coisas são como são.
A alteração da Percepção
Quando se fala em iniciação, coloca-se a questão se é possível viver no presente, provocando uma alteração da percepção das coisas. O ser humano tem uma desvantagem em relação a outros ser vivos – não vê as coisas como elas são, não tem uma percepção imediata das coisas, uma instantaneidade da intuição, um fazer imediato. Esta percepção existe em nós, mas está adormecida (as artes marciais tentam despertá-la). Esta percepção permite agir sem intervenção do pensamento. Nós queremos normalmente percepções domesticadas, queremos que nada mude que tudo fique como sempre foi. Queremos que o outro esteja sempre igual às memórias que dele temos, e não percebemos que a percepção se torna uma armadilha quando tem como referência o passado. A imagem fixa que temos das coisas, actualizamos com alguma dificuldade porque recorremos sempre à comparação. Temos de verificar que a percepção pode ter duas cargas diferentes, uma objectiva outra subjectiva. A sensação directa fornece uma percepção objectiva, vemos sempre como se fosse pela primeira vez. Todos os dias, a todos os momentos devíamos entrar neste jogo da percepção pela primeira vez.
Nós tingimos o mundo com a subjectividade do nosso eu e assim não o vemos como ele é. Este eu é uma síntese de milhões de anos de evolução da espécie. Temos de passar da subjectividade do eu de sonho para a objectividade do estado de Atenção. Os hardwares de todos os eus é igual, e as suas experiências também, todos têm o mesmo medo, as mesmas felicidades, o mesmo amor e ódio. O eu funciona como um círculo à nossa volta que nos separa da consciência intrínseca ou seja, do mundo e do outro. O eu é comum a todos nós, as nossas sensações e sentimentos são iguais aos dos outros. O estado de Atenção ou a prática incolor como o chamava Patanjali, no seu tratado sobre o Yoga, leva para além da colorização que cada um dá ao eu, leva para além do eu que construímos como se fosse à parte do resto, como se fosse diferente, mas nós somos o resto.
O eu convergente não é capaz de verdadeiras interacções, só um eu divergente, ou seja, só em estado de Atenção pode haver interacções. Se delimito o eu, delimito a consciência psicológica e estou em consciência pura que não tem limites nem configuração. Qualquer tradição iniciática trabalha a consciência pura, a consciência sem círculo. É neste estado que já não há território que pode ser ameaçado pelo outro e assim cessa qualquer medo. Suprimindo a ilusão territorial que é o eu e a minha chamada história pessoal, com a qual me quero diferenciar dos outros, uma vez que o resto (as emoções e sensações) é igual para todos, vive-se plenamente numa interacção alargada e num novo estado de percepção. Deste modo saímos da aldeola do eu circunscrito e limitado para viver no universo.
A viagem do Louco e a tradição
Os Contos de Fadas remetem sempre para uma primeira vez. Assim por exemplo no conto “O Rapaz que Partiu para Apreender o Medo”. O primeiro elemento do conto é o trajecto do rapaz tido por tolo, que é o Louco do Tarot, o herói que corre mundo. A viagem iniciática é sempre algo de louco nos olhos do mundo. O jovem do conto é um imprestável que não corresponde às expectativas do mundo e que parte numa demanda do medo. Vê que o seu irmão está cheio de medos e ele, ao qual nada faz medo, que conhecer esta emoção. Se o mundo seguia o senso comum, ele não, mesmo se ficasse pobre o resto da sua vida; mas ele ganha um reino, o reino da sua própria consciência intrínseca. Ele passa do círculo do eu e vai para além, conquistando um reino e riquezas inacreditáveis. O génio, um velho de barbas que remata esta história, é o senhor do tempo. O herói descobre que o tempo é o gestor dos medos e negocia o medo com o tempo.
Não é o tempo das coisas que nos faz medo, mas sim, o tempo psicológico. Contudo, o jovem não resolve o problema da pele de galinha que o irmão conheceu e continua a ter inveja dele. Aprende então com a mulher e compreende que o medo é a tensão da comparação, introduzida pelo tempo psicológico. Na comparação envelheço as situações, mato-as. Saturno, o senhor do tempo, é assim também o senhor de todas as comparações. O tolo é simplesmente, vive a realidade sem tempo psicológico, tendo deste modo outra relação com ela. Viver no AGORA significa pensar, sentir, agir num estado sem motivação, sem objectivo que fazem que tenho medo de não conseguir a meta ou depois perder o que alcancei. Ter medo revela-se uma falsa questão, o medo é um tigre de papel que apenas existe na visão do eu.
Há duas maneiras de agir – por motivação ou compulsão ou por auto-conhecimento. A tradição é um património de experiência feita, um pacote que herdamos. Quando a recusamos para insistir na nossa própria demanda, rejeitamos as expectativas e a motivação de acção dos pais ou do meio social. Com ela rejeitamos um sistema de auto-reprodução sem inovação. O tempo herdado é tempo psicológico. Por isso, os artistas tem, em cada geração, romper com o conjunto de tradições para ir à origem, recomeçar a criação, criar de novo. A ruptura com o sistema é sistemática na criação artística.
Nos Contos de Fadas, o auto-conhecimento na sua estrutura arquetípica está a flor da pele, é terapêutico na medida que traz elementos que desfazem o stress psicológico. A sua linguagem dirige-se ao inconsciente. Revela-nos que há dois registos cerebrais – o cérebro que trabalha com uma abordagem de utilidade, que é o cérebro direito intuitivo e criativo, e o outro que trabalha identificando-se com o protagonista. O herói vai pela percepção directa e intuitiva, pelo hemisfério direito.
Este herói em nós é o filho pródigo e a sua demanda. É o tolo em nós, o Louco que parte de uma família comum e chega a uma família exultante, nova. Há em cada um de nós um percurso féerico, uma capacidade de viver a realidade tal qual ela é, não precisamos de alterar nada. A vida faz sentido à partida. O fantástico já cá está, a dimensão mágica e deslumbrante já está em nós, nos apenas esquecemo-nos disso, é o lado adormecido em nós. Em “A Bela Adormecida” é a relação causa – efeito mágica que faz que a princesa encontre o príncipe. Há algo que acontece sempre no presente, como se fosse pela primeira vez, se estivermos disponíveis de momento a momento e é esta a única maneira de viver magicamente. Na criação não existe a segunda vez – “O mestre só fala uma vez”, e a nossa vida é como o mestre. A consciência psicológica cria esta convicção que deve haver uma segunda vez.
O espelho fragmentado
Não nascemos para criar uma história pessoal medíocre que é esquecida uma semana depois da nossa morte. Ninguém se interessa pela nossa vida, uma vida que é muito fragmentada, que não tem remédio como ficção. O iceberg só mostra a ponta que emite sinais fragmentadas, a vida é um espelho despedaçado, não pode reflectir uma imagem coerente. O que custa na morte é que temos apenas estilhaços nos quais vemos a nossa cara. É este o pânico do findar do pequeno círculo do eu. A magia é o caminho do meio, é viver e morrer sem ganho.
Como é que podemos activar o herói em nós? Ele não é o eu construído socialmente, é uma espécie e anti-herói com uma história ilimitada. Há algo em nós que escreve uma história mágica em nós que por vezes aparece em fragmentos nos nossos sonhos, sonhos perturbantes com timbre féerico e uma carga simbólica. É este o herói de iniciação. O eu e herói não podem coexistir. Temos de sentir à partida o que há de mais original e inquietante que transforma o percurso e a vida em algo que é realmente só nosso e que interessa a todos os seres humanos. Não é a nossa história. É a do herói em nós, é a natureza heróica que assume a nossa forma. A história arquetípica que tem para contar é uma história de iniciação, não uma história de vida. ( É esta a história de Sócrates, contada por Platão ou a de Ulisses – uma aventura de herói, e não da personagem.) Há assim um percurso paralelo em nós, um processo de sageza que deixa de fora os eventos da vida, um percurso de auto-descoberta, uma odisseia sempre nova. A aventura iniciática é sempre diferente de todas as outras, ao passo que a história de vida é quase igual em todos os seres humanos.
O Herói Solar
Para o herói solar que está por detrás de todas as reencarnações, estas só interessam se tiverem elementos libertadores. Cada vida no presente é um resumo da história do universo de biliões de anos. O herói é atemporal, transversal ao tempo, um peregrino inquieto e indomável e não se deixa prender numa gaiola. Ele não se envolve nas artimanhas fantasmagóricas do tempo, aprende a vida doutra maneira e tem uma percepção que não se baseia na comparação.
A percepção mágica tem o poder de mutação do indivíduo, um elemento de redenção que a consciência psicológica destrói. Temos de escutar o herói em nós que não acumula experiências e não leva bagagem consigo. Jesus é o paradigma deste herói solar que diz: “Não tenho local onde repousar a minha cabeça.” É um herói sem domicílio terrestre, como aliás todos os avateres, ou seja, representações / incarnações do herói como o Buda ou outros: “Se queres saber quem é o herói, encontra-o em ti mesmo.” Ele está intrinsecamente em cada um de nós e tem uma percepção de sensação directa, uma motivação única de pura consciência-energia individuada, feita indivíduo. Ele não tem história, é ninguém, não tem identidade, não se identifica nem ao passado nem ao eu. Existe enquanto história universal, desejo de expressão e desdobramento de um desejo único – a auto-realização. Não se apodera da vida como experiência, não tem história pessoal, mas uma história de iniciação fabulosa. O herói é impessoal. Nós não podemos servir dois senhores – ou estamos no registo do herói ou no registo do eu. O herói fala dos seres humanos, não de si.
A magia do Real
Qual é o factor de transformação? Ausência absoluta de história pessoal, o discurso é sobre o herói do outro, o único interesse reside na vida do herói do outro. Há uma consciência intrinsecamente generosa que não se apodera de nada. O chamado voto de pobreza significava originalmente isso – a promessa de não se apoderar de nenhuma experiência, e o templo era o lugar do herói para o qual não pode levar nenhuma riqueza deste mundo. ( nos tempos mais recentes Krishnamurti vivia assim). A percepção altera-se profudamente nesta perspectiva, é completamente nova no viver no AGORA. Damo-nos conta que, a cada momento vivido, só podemos escolher entre duas coisas – ou apoderar-nos do momento ou viver o seu encanto sem projecção do passado para que a magia do real não se perder.
A morte será um momento inglório se não for vivida no AGORA. Tornar-se-á então no momento mais importante de uma vida. Nascemos para ser heróis impessoais da nossa vida que tem sempre sentido. Transversalmente, por detrás está o herói num percurso iniciático único, de momento em momento. Na prática é a respiração que nos traz para o momento. Sacrificamos o momento à nossa tranquilidade, projectando-nos no vazio do estado de Atenção:
Energia – consciência
Herói
∞
Sensação directa
a cada momento
∞
Ser
Experiência irrepetível
e única
Estar no momento
sem construção do eu
A presença do Ser configura-nos de maneira diferente, instalando a bem-aventurança da consciência intrínseca e leva à compassividade e à experiência da vida tal como ela é, uma experiência da unidade de todas as coisas.
O florescimento do Ser
O pensamento é então sageza, o sentimento de pura compaixão e sensação da unidade de todas as coisas. eu e o outro somos uma e a mesma coisa. A acção tem uma única motivação – o florescimento do eu à sua maneira. Este florescimento do Ser em nós encontra a sua própria sageza, não se alimenta da sabedoria dos outros. Apaixonar-nos pelo Ser em nós é a paixão de todas as paixões. O resto é teatro de sombras. Para poder descobrir este Ser único é preciso ousar de sair da nossa casa, do eu. O ciclo vital de cada vida serve a isto e a mais nada. É esta a descoberta que o príncipe faz no conto “A Princesa Pele de Burro” quando olha pelo buraco da fechadura, tendo um vislumbre do Ser que está do outro lado, que está em cada um de nós. Este deslumbramento faz nos descobrir a comédia do eu com a sua busca de auto-preenchimento e posse do objecto e do outro que traz logo a seguir o medo de o perder. Só então podemos deixar de ser predador do outro, na nossa constante procura de auto-satisfação. O eu corta logo as relações quando o outro nega de espelhar a nossa imagem. Exigimos do outro constante compensação pessoal e desenvolvemos estratégias de sobrevivência emocional que trazem ressentimento e colocam uma armadura à nossa volta.
No registo do Ser sentimos que iniciamos a viagem e que deixamos tudo de fora que não somos. Viver em estado de Atenção significa permanente disponibilidade e abertura. Tornamo-nos então donos das nossas vidas, criamos a nossa vida. A iniciação é isso mesmo.
V.Q.
Contos de Fadas – fairy tales ou contes de fées – são narrativas arquetípicas que remontam à origem dos tempos e que têm como inspiração espiritualidades vivas. São histórias que descrevem, numa linguagem simbólica e cheia de sageza, o que importa acontecer iniciaticamente no ser humano, como seja a renovação da sua vida interior, a transformação profunda da percepção e do entendimento, e uma relação verdadeiramente compassiva para com a sociedade e o cosmos.
Os Contos de Fadas relatam, pois, a experiência do que acontece quando se ultrapassa a fronteira da consciência condicionada e ilusória, que é o “eu” psicológico, com os seus fantasmas, mitos e medos, os quais, no dizer dos antigos sábios, não passam de meros jogos de sombras e de tigres de papel.
Por isso, tanto no Ocidente como no Oriente, a Meditação encontra algumas das suas chaves de maior significado prático nas narrativas dos Contos de Fadas, que apontam imageticamente para a prática ancestral de espiritualização activa, a qual se traduz – quando correctamente aplicada – por uma mutação diária e constante da consciência de si mesmo e do mundo, o que equivale a ver com novos olhos o ciclo do nascimento, da vida e da morte. V.Q.
O construtor de sonhos e a viagem através do Ser
A humanidade é um construtor de mitos e de imagens, ou seja, um construtor de sonhos a partir das suas memórias. Ao nível pessoal, cada um constrói o seu mito que é o seu álbum de fotografias. Todos escrevemos deste modo o nosso conto da fadas, paralelo à realidade e baseado nas nossas memórias. É a história de um herói, de uma heroína de “mil faces” que cada um é e com o qual cada um se identifica.
Assim, nos Contos de Fadas tradicionais, o herói somos sempre nós e é por isso que as crianças adoram estes contos, identificando-se com o herói. Os adultos já não reagem com o mesmo encantamento porque não entram na fantasia do conto. Há, contudo, uma ligação do Conto de Fadas à psicoterapia, uma vez que aquele permite de encontrar em nós o herói positivo e desenvolver com imaginação a nossa história pessoal, descobrindo que afinal somos nós o autor desta história ficcionada. Assim podemos reavaliar o percurso da nossa história de vida. O psicodrama infantil utiliza os contos com a mesma finalidade. A criança tem muita facilidade de identificar-se sucessivamente com todos os protagonistas dos contos, uma vez que os contos tradicionais têm sempre uma componente mágica, transformando o real em sonho lúcido que permite construir e desconstruir a história ao nosso bel-prazer.
Os Contos de Fadas proporcionam assim uma viagem através do Ser. Todos os povos têm um património de Contos de Fadas e do maravilhoso, que configura um potencial redentor e de gnose, um imaginário libertador pré-religioso, onde o ser humano é o herói da transformação da sua própria vida. Os Contos de Fadas, ao invés das fábulas, por exemplo, não são edificantes, não têm happy end e não pregam a moral de uma determinada sociedade. Podem ser muito cruéis como a própria vida. “O Barba Azul”, por exemplo, fala do exercício do poder pessoal e do prazer em matar; “A Princesa Pele de Burro” fala de uma filha que tenta libertar-se do desejo incestuoso do pai. Os contos demonstram que somos capazes de superar os maiores obstáculos, desvelando o sentido ético da vida, o bem e o belo que apenas se pode descobrir através da experiência própria, no fundo do nosso coração. A auto-descoberta não é um bem pré-formatado, é algo que está em cada um, é a componente ética e libertador em cada um.
A origem dos Contos de Fadas
Todos os contos baseiam-se, originalmente, na transmissão oral. Só muito mais tarde, nos séculos XVIII e XIX, alguns autores franceses e alemães – Perrault, os irmãos Grimm e depois Andersen – configuraram-nos em antologias, misturando-os com fábulas morais e contos de salão. Perrault ainda conserva algo da crueldade original dos contos, os irmãos Grimm já os tratam num registo literário ao passo que Andersen cria contos modernos. Apenas cinco por cento de todos estes contos são Contos de Fadas verdadeiros. Os contos tradicionais portugueses reflectem a época da ocupação árabe da Península Ibérica. Os mouros surgem neles como não-cristãos odiosos, ao passo que às mouras é sempre dado um grande poder de sedução. As “mouras encantadas” são vistas como um perigo, como sedutoras dos cristãos. Prevalece assim a componente repressiva e moral nestes contos e não há tradição feérica e mágica nos contos portugueses. Falta em Portugal este imaginário do sonho transformador e libertador, da demanda original do ser humano. Esta tradição chegou a Portugal apenas em segunda mão, é importada. Mesmo os Templários portugueses não herdaram esta tradição, são uma espécie de cavaleiros de segunda, servindo apenas como carne para o canhão nas cruzadas e na expulsão dos árabes. A tradição trovadoresca, por outro lado, passa pelos Contos de Fadas, e neles se refugiam os mitos do herói corajoso que leva à frente a sua demanda. Os Contos de Fadas reflectem a ordem mitificada de uma sociedade original que é transfigurada para todos os tempos e permite a identificação com uma multiplicidade de papéis para que cada um possa auto-conhecer-se neles como num espelho. São narrativas fora do tempo com uma função redentora, onde a aventura humana não tem princípio nem fim, é eterno e atemporal. Neles podemos descobrir o que é o não-tempo, o Ser fora do tempo sequencial e cronológico. O “Era uma vez…” suspende o tempo cronológico e psicológico. Daí a sua ligação à meditação que é o não-tempo que podemos descobrir em nós.
Por outro lado, os Contos de Fadas convocam também o problema da ilusão – os nossos sentidos enganam-nos, a nossa percepção, em vez de observar, isenta, a realidade, interpreta-a, iludindo-nos com mesclas de realidade / ilusão que se podiam chamar o Yin e Yang da percepção. Assim, os Contos e Fadas são narrativas de origem oral para adultos que transmitem a gnose e sageza originais, popularizando os grandes mitos de origem, vindos das Escolas de Iniciação e que correspondem à aventura humana, ao percurso de demanda, de auto-descoberta e auto-realização do ser humano. Estas Escolas, inicialmente, encenavam estes princípios arquetípicos do ser humano, encenações que se tornaram a base de todas as civilizações, transmitindo um potencial de sageza antiga de geração em geração.
Contos da Fadas e auto-descoberta
Através deles podemos descobrir o nosso próprio Conto de Fadas e o elemento transfigurador em nós, o não-tempo. Podemos também descobrir o que é a morte, o que é o momento de morrer e a revisão da vida em dois ou três minutos da qual falam os que voltaram à vida depois de uma experiência de quase morte. Quando a vida biológica está em ruptura, o cérebro tenta dar sentido à experiência da vida. Descobre-se então que contamos a nossa história de vida a nós mesmos e que olhamos a nossa vida como se fosse a história de um herói, retendo o que é significativo e sublime. Esta síntese do conto da nossa vida tem a mesma estrutura que um Conto de Fadas, ou um sonho lúcido, com o qual queremos dizer algo a nos mesmos. Ambos são histórias de metamorfose e transformação. É por isso, que tanto na Bíblia como nas sociedades antigas através dos xamãs, a interpretação dos sonhos era para as comunidades um potencial a explorar. A beleza dos três minutos no momento do morrer é como o resumo do sublime da vida. Este happy end depende do que fazemos da nossa demanda de sentido ao longo da vida. Com entendimento intuitivo, podemos explorar o nosso “projecto de vida” como herói / heroína.
A Princesa Pele de Burro
Uma princesa de cabelo louro e pele branca é filha de um rei que tinha uma paixão louca pela rainha, a mãe da princesa. Este triângulo de relacionamento está muito feliz até à morte da rainha. No leito da morte, o rei jura-lhe fidelidade eterna, apesar de a rainha lhe pedir para se casar de novo. Entre todas as candidatas que se apresentam nenhuma igualava a rainha morta, da qual o rei continuava a ter grandes saudades. Quando a filha se tornou numa adolescente muito parecida com a mãe, o rei apaixona-se por ela e quer substituir a mãe pela filha. Esta, contudo, tinha uma fada que a protegia e a ajuda a encontrar uma solução para que o rei não caia na tentação. Diz à princesa para pedir coisas inverosímeis ao rei, para que o casamento pedido pelo pai fosse sempre adiado. A filha pede-lhe assim, em primeiro lugar, um vestido de cor da Lua, depois um da cor do Sol e finalmente, sabendo que o rei tinha um burro mágico pelo qual tinha grande afeição, a filha pede-lhe um vestido feito da pele deste burro. O rei mata então o burro e manda fazer um vestido da pele. A princesa envolve-se neste vestido que a torna muito feia e foge da corte, levando todos os vestidos consigo. Inicia então uma longa peregrinação até chegar a um outro reino onde, numa quinta, encontra uma família que a aceita como servente, apesar da sua fealdade. Durante o dia cumpre todo o serviço que lhe é pedido e à noite, no seu quarto bem fechado, veste os vestidos que trouxe consigo, transfigurando-se face ao espelho. Neste reino onde agora vivia, o rei andava à procura de uma noiva para o seu filho. Os mensageiros de todo o mundo propuseram-lhe as mais diversas princesas, mas o príncipe não gostava de nenhuma. Um dia o príncipe visita a quinta onde vive a princesa. Era ao fim do dia e a princesa já se tinha retirado. O príncipe vê então uma luz esplendorosa por baixo da porta e não resiste e encosta o olho ao buraco da fechadura. No quarto vê a princesa no seu vestido solar. Mas quando abre a porta, descobre apenas uma rapariga feia vestida de pele de burro. O príncipe não consegue esquecer a visão deslumbrante da mulher que viu e apaixona-se pela sua visão. Não sabe onde encontrar a mulher que viu e fica doente. O rei seu pai, para o ajudar, recorre então a uma artimanha. Pede à rapariga feia que faça um bolo para o seu filho. A princesa faz o bolo à noite no seu quarto, envergando um dos seus vestidos. Transfigurada de novo, um anel cai-lhe no bolo. Quando lhe trazem o bolo, o príncipe recupera o apetite, come o bolo e trinca um anel fabuloso e muito delicado. Declara então que apenas se vai casar com a dona do anel. A nenhuma das princesas que se apresentam o anel cabe nos dedos. Finalmente é chamada a rapariga da quinta. Da sua pele de burro sai então uma mão muito delgada e fina e quando enfia o anel, a pele de burro cai e ela apresenta-se em todo o seu esplendor. O príncipe casa então com ela. Entretanto o pai que tinha ficado muito triste depois do desaparecimento da filha, casou com uma rainha viúva sem que esta lhe inspire um verdadeiro amor. Quando recebe o convite para assistir ao futuro casamento da filha, supera a sua pulsão incestuosa, desiste das suas fantasias e faz as pazes com a filha.
Realidade e ilusão
Como este, muitos dos Contos de Fadas exorcizam certas transgressões que põem em perigo o funcionamento normal da sociedade. Contudo, esta dimensão social do conto remete sempre para algo de feérico, algo em cada um de nós que é este monstro feio no qual a princesa se transformara, pois há algo em nós que se sente atraído pelo monstruoso. Por outro lado, isto remete ao facto que a percepção que temos de realidade não corresponde sempre à verdade. O conto em questão, como aliás muitos outros, cria um triângulo arquetípico:
Reino
Rei Rainha Céu
Princesa Fogo / Ar
(Vénus)
Este reino, por sua vez, espelha-se num outro, cumprindo a máxima hermética “O que está em cima é como o que está em baixo”.
Príncipe Água / Terra
(Marte)
Rei Rainha Terra
Reino
A relação entre ambos os reinos é estabelecida pela princesa e pelo príncipe sobre o fundo de um repertório mágico-astrológico, que corresponde a instâncias em nós que impõem uma nova ordem. Trata-se, neste conto, de dois reinos diferentes, o primeiro é lunar e crepuscular, o segundo solar e auroral. Na base, contudo, está o problema da sedução e do desejo. A princesa transita entre ambos os reinos, dispondo de um pacto íntimo com os quatro elementos, representados pelos quatro vestidos, utilizando o imaginário alquímico. A sua viagem de um reino para o outro simboliza o percurso interno da vida e da organização dos três princípios de expressão arquetípicos em nós, a inteligência intelectual, a inteligência emocional e a inteligência psicomotora.
A floresta de todos os enganos
Doutro conto, “O Capuchinho Vermelho” são transmitidas duas versões. Numa, o lobo é um monstro terrível noutra, um animal obediente e submetido ao ser humano. O lobo é assim altamente ambivalente nos Contos de Fadas e possibilita espelhar a natureza ambígua do ser humano no seu constante lusco-fusco. A floresta, por sua vez, presente em muitos contos e sonhos, reflecte aquilo em nós que é o desconhecido, o local de todos os perigos, ameaças e riscos. É o lugar de riscos de perda, de encontros sombrios e lunares, do confronto com os monstros. Simboliza assim a consciência psicológica na sua ressonância crepuscular e ilusória, o que C.G. Jung chamou e inconsciente colectivo. Aí jogam-se os grandes dramas da consciência humana, ela é a matriz da luta entre luz e sombra, entre vida e morte, entre todas as dualidades e da divisão binária fundamental entre luz e trevas. Serve como proposta arquetípica da divisão lunar e solar, entre uma parte que se mostra e outra que se esconde. Nela jogam-se todas as contradições. Trata-se de um inconsciente não localizável no ser humano. É uma espécie de estrutura de fronteira entre a vigília e o sonho que propõe material de “floresta” à nossa experiência, onde nos podemos perder. Os Contos de Fadas pega na nossa floresta pessoal, na nossa sombra e dá-lhe uma estrutura organizada.
Contos de Fadas e matrizes peri-natais
O cérebro utiliza o sonho para reorganizar a experiência de vigília. Durante esta última e com a ajuda das redes neurónicas focamos apenas dez por cento, ou seja, apenas um ângulo muito pequeno desta experiência que, além disso, é fortemente viciada pelo condicionamento dos traumas do nascimento ( matrizes peri-natais formuladas por Stanislav Groff), da educação e da formatação social. Os Contos de Fadas e o seu imaginário psico-genético estão inscritos em cada um de nós através das experiências pré-natais e de vida. A criança, no ventre da mãe, nada no líquido amniótico que é uma espécie de amplificador de todos os sons. Assim o feto tem perfeita consciência de tudo o que se passa à sua volta. Durante os nove meses de gestação passa por quatro fases:
1 - Sentimento oceânico onde se sente como no paraíso, altamente protegido num equilíbrio homoestático.
2 - No momento da ruptura das águas é exposto a uma tensão de insegurança absoluta e é ameaçado de ser expulso do estado de segurança anterior.
3 - No momento das contracções regista uma enorme angústia e passa por uma experiência traumática que é origem de todos os medos e especialmente do medo do escuro. A passagem pelo colo do útero no processo de dilatação é o primeiro encontro com a ameaça da morte.
4 - A última fase do nascimento propriamente dito é o confronto com um mundo desconhecido.
A segunda e terceira fases são as mais problemáticas e são estas que são exploradas nos Contos de Fadas. Dai a grande crueldade de alguns deles, onde os traumas do feto repercutem. A demanda repete, de certa maneira, as fantasias e episódios do trajecto pré-natal, que condiciona toda a psique do ser humano. As suas alegrias e os seus medos, assim como toda a sua estrutura emocional estão lançados através deste trajecto. A hipnose é capaz de nos fazer regressar a estas fases. As psicoses são o retorno às matrizes pré-natais. A importância da estrutura arquetípica dos Contos de Fadas se confirma ainda se realizamos que nascimento e morte têm matrizes semblantes, que o trajecto da morte inverte as quatro fases como se fossem vistas num espelho. Ela é um nascimento ao contrário que precisa de um guia, de uma parteira. Na morte podemos eventualmente ser confrontados com todas as traumas que vivemos no nascimento, sendo ela uma espécie de segundo nascimento e ambos um percurso de dentro para fora. Os Contos de Fadas simbolizam nas suas figuras, na bruxa, no lobo, no logre, etc. etapas deste percurso.
“A mãe Holle”
As duas raparigas deste conto são antagónicas, são luz e sombra no ser humano. A loira (solar) irradia, está completamente aberta ao meio, disponível a trocas que enriquecem e potenciam a interacção com o mundo, é corajosa e vive o máximo do seu potencial generoso. A outra, morena (lunar), é altamente auto-centrada, fechada sobre si mesmo e predadora nas relações. Utiliza as relações como estratégia de sobrevivência, divide as pessoas em amigos e conhecidos, nos que dão algo e nos que se têm apenas de aturar. Por isso está distraída, sem verdadeira capacidade ao diálogo e de interacção com o meio. Vive apenas uma parcela mínima do seu potencial. O alcatrão que lhe cai em cima ao fim da sua experiência é a “noite de breu”. A generosidade, a gratidão e a superação do medo ou seja, a coragem, são os elementos de redenção neste conto. A demanda é a viagem através do campo de experiência da nossa vida que desafia para esta superação.
O percurso iniciático
O percurso iniciático descrito pelos Contos de Fadas segue o dos grandes mitos e lendas, por exemplo o da Lenda do Rei Artur, ou seja, da demanda do Graal. Nesta encontra-se, no fim do trajecto, um objecto abençoado, um elemento de redenção crístico. As iniciações repetiam simbolicamente este processo num espaço sacralizado com várias provas e a respectiva superação que leva à iniciação. O sonho lúcido é um sonho organizado que pode ter a mesma estrutura. Os avateres seguem este percurso como o faz Cristo na morte na cruz e na ressurreição.
No conto “Os Músicos de Bremen” descobrem-se as diferentes fases deste percurso. Trata-se de quatro animais ameaçados de morte que fogem para sobreviver. O burro simboliza o elemento Terra, a psico-motoricidade, o metabolismo, a capacidade de agir e realizar, a vontade. O cão é do elemento Água e representa a esfera da inteligência emocional, sendo o símbolo da fidelidade. O gato é do elemento Ar e simboliza a inteligência cognitiva. O galo, finalmente, é do elemento Fogo, simbolizando o despertar, sendo um animal de fronteira entre dois mundos, entre noite e dia, o anunciador do ciclo solar, relacionado à esfera do quarto cérebro, a dimensão da redenção no ser humano. Ele é o potencial criativo em nós, o herói que aceita o risco e enreda pelo percurso iniciático.
Os três níveis de inteligência do Ser Humano
Em cada nível de inteligência do ser humano há elementos solares e lunares, há expansão e contracção. Os três níveis são as estruturas conflituais em permanente movimento e oscilação entre centro e periferia, entre extroversão e introversão, numa dinâmica bipolar face às circunstâncias. Quando nos sentimos seguros, abre-se o jogo, quando sentimos perigos ou ameaças fechamo-nos e perdemos as capacidades comunicativas em todos os três níveis. Ao nível do pensamento, fechamo-nos nas nossas opiniões; ao nível de emoções, respondemos com grande reactividade; ao nível psico-motor há um bloqueio total.
É preciso detectar as razões para o medo, para a insegurança, para o corte de comunicação. Os Contos de Fadas permitem localizar e exorcizar estas razões. Vejamos a história “Os Três Porquinhos”.
Para os três porquinhos se protegerem contra o lobo da floresta o primeiro constrói uma casa de palha onde toca flauta; o segundo constrói uma casa de madeira onde toca violino, o terceiro constrói uma casa de tijolo onde toca piano. O lobo derruba facilmente as duas primeiras casas, na terceira tenta entrar pela chaminé, cai num grande caldeirão de água quente e acaba de ser comido pelos três porquinhos. As três casas e instrumentos correspondem, respectivamente, a primeira, à inteligência cognitiva, a segunda, à inteligência emocional, a terceira, à inteligência pisco-motor e visceral. Esta última é a estrutura mais fiável. É o centro que nas artes marciais se chama Hara, o ponto mais sólido que temos em termos psicológicos. Esta inteligência visceral é a base de toda a nossa estrutura, é a nossa casa que permite a sobrevivência. O piano é-lhe agregado como instrumento de grande escala, de percussão e ritmo, simbolizando o verbo ou seja, a acção. O violino é o instrumento emocional por excelência, permite tocar melodias e entrar em interacção com outros, adjectivando. A flauta é o instrumento mais primitivo que simboliza a harmonia e imaginação, ligado ao substantivo. O primeiro porquinho vive na ansiedade de expectativas, produzindo ilusões fantasmagóricas para perpetuar a vida num futuro imaginário. O terceiro porquinho está no passado, vincula-se à memória lunar. Tem uma atracção especial para a sua própria história que é puramente ficcional na sua interpretação subjectiva do como reagiu aos acontecimentos. O segundo porquinho vive o presente e está ligado ao sentir, ao imediato de uma linguagem não verbal. A palavra é um lugar seguro e pode servir como trampolim para a descoberta do desconhecido, pode abrir a passagem do verbal ao não-verbal.
Os Contos de Fadas transmitem uma sageza intuitiva e não científica que conhece perfeitamente a tripartição do campo da consciência psicológica do ser humano. Esta dá apenas para a sobrevivência ao passo que por detrás dela está o próprio Ser, a proposta de transformação da estrutura biológica em ser individual. Neste sentido pode dizer-se que todos têm uma vida, mas poucos são. Nos Contos de Fadas é o herói ou a heroína que andam à procura do Ser, no percurso que atravessam procuram o seu próprio ser, uma vez que não basta ter uma vida, é preciso ser. A pergunta que põem é: será que sou mais do que a minha vidinha, que sou mais do que a minha experiência vivida?
Estado de Atenção
A diferença está no estado de Atenção, ele permite ver se agimos em termos de vidinha ou em termos do Ser. Jung chamava a isso o processo de individuação, um processo não previsto pela natureza. Graças ao estado de Atenção é possível despertar o Ser, transformar o ter em ser. Este estado acontece no AGORA sem que haja expectativas de um futuro fantas-magórico, nem distracção com as memórias. O estado de Atenção dá-se no presente e relaciona-se com o sentir numa percepção imediata no AGORA sem que haja espaço para reactividade. É a zona do coração que é compatível com o estado de Atenção, livre do passado e do futuro. O herói / a heroína situam-se neste espaço, avançam passo por passo num processo de constante transformação e mutação sem jamais distrair-se com o passado ou sonhar com o futuro. Viver assim é a única maneira de experimentar o Ser. Se cairmos na distracção e nas expectativas, apenas sobrevivemos. Os Contos de Fadas indicam assim o elemento central do processo, o sentir no presente (o violino na história “Os Três Porquinhos”). O estado de Atenção é total disponibilidade que, por sua vez, traz o silêncio para escutarmos e sentirmos sem interpretação psicológica. Trabalhamos então com uma linguagem imediata e intuitiva que permite sentir o outro, o espaço e o meio.
O verdadeiro Despertar
Os Contos de Fadas explicam a relação entre símbolo e a natureza humana no seu comportamento psicomental. Não existe perfeição nestas três estruturas de sensação, isto é um mito. O comportamento ético face às situações surge por dentro em cada momento. É a voz do galo no conto “Os Músicos de Bremen”, o “sei que não sei” face aos desafios, é algo em nós que se apercebe quando a noite se transforma em dia. À noite estamos adormecidos e sonhamos num nível inconsciente, no dia despertamos deste mundo lunar que se exprime apenas por memórias e expectativas. A questão é de despertar verdadeiramente e viver em estado de Atenção. Se nos tornamos conscientes da nossa noite, se a conhecemos, a transformação pode fazer-se. Assim o galo é discernimento e o estado de Atenção. Este é o elemento que transforma a noite em dia, uma vez que permite ver a noite e o dia simultaneamente, ao passo que, distraído, estou ou na noite ou no dia. Este estar entre dia e noite ultrapassa a dualidade.
Em conflitos, por exemplo, o estado de Atenção permite colocar-se num ponto por além das duas partes do conflito, age-se então sem justificação, sem emoções reactivas e sem defesa do seu próprio território. Deste modo não se alimenta o conflito, fazendo dele um problema. Neste contexto percebemos que o nosso espaço interior não tem geometria definida, é um espaço sem contornos em constante configuração.
O tempo suspenso
O conto “A Bela Adormecida” coloca sobretudo o problema do tempo. Quando a princesa adormece, o tempo fica suspenso. Já encontramos, no conto “A Princesa de Pele de Burro”, outro sinal deste não-tempo no seu vestido do tempo. A paragem do tempo significa silêncio que nos coloca por além do campo da consciência psicológica. O príncipe (e o galo) anuncia o dia como não-tempo. O campo de consciência psicológica serve apenas para a sobrevivência, a consciência anunciada pelo príncipe é o próprio Ser como proposta de transformação da estrutura biológica em Ser individual. Todos podem ter uma vida, poucos são. Nos Contos de Fadas, o herói anda à procura do Ser, de ser ele próprio no percurso que atravessa. Não basta ter uma vida, é preciso ser. Põe-se então a pergunta se somos mais do que a nossa vidinha, mais do que a nossa experiência de vida.
O estado de Atenção permite ver se agimos em termos de vidinha ou em termos de Ser. Descobrimos então o processo de individuação, processo que não está previsto pela natureza. Este despertar, pelo beijo, do estado de atenção transforma o ter em Ser.
A transgressão do pacto de obediência
Por outro lado, o sangue no conto “A Bela Adormecida” que jorra de um dos seus dedos, é uma referência à primeira menstruação, um fenómeno biológico que adquire valor simbólico como aliás, nos contos, todas as cores representarem estados de espírito. O vermelho (Capuchinho Vermelho) está ligado a Marte, ao sangue, ao desejo e à vontade. Remete para o desejo de transgressão que é o pecado original, o transgredir do pacto de obediência que permite crescimento, não é visto como um mal, mas como transgressão das normas que impedem o crescimento. É o Capuchinho Vermelho que seduz o lobo e o lobo come a avó que representa a norma social. Em “A Branca de Neve” e em “A Bela Adormecida”, o beijo é o toque mágico que desperta para a vida e o príncipe iguala, em termos simbólicos, o galo. São ambos o princípio activo que anuncia o dia, a luz solar que anima as três zonas de sensação, representadas pelas princesas.
A floresta, nos Contos de Fadas representa a primeira e a segunda zona de sensação que, no Tarot, correspondem à carta do Diabo que é Lúcifer, o anjo caído. Ele introduz a curiosidade, o desejo activo do conhecimento. Este desejo, muito presente nos Contos de Fadas, está ligado ao sentir e leva à transgressão. A repressão do desejo empobrece a vida, deixamos de ser o herói se desistimos do desejo e funcionamos apenas no registo de um animal de hábitos.
A força do desejo
No conto “João e o Pé de Feijão”, o jovem rapaz é, aos olhos do mundo, um simplório que vive a sentir as coisas. A mãe pede-lhe para vender no mercado a única vaca que têm, porque já não têm com que alimentar-se. No mercado oferecem-lhe em troca da vaca um saquinho com três feijões mágicos. Curioso como é, João aceita esta troca. De regresso à casa, onde a mãe se zanga muito com ele, João planta os feijões no jardim. Durante a noite cresceram, formando uma escada que João vai subindo, obedecendo ao seu desejo de ver o que está lá em cima, de descobrir o desconhecido, o mistério da vida. Chegado às nuvens, encontra um gigante terrível que o ameaça. Depois de várias peripécias João consegue fugir, levando o tesouro do gigante.
Quando o desejo pode fluir livremente, permite-nos ser, ou seja, sentir cada momento. Ele é uma força de libertação, uma força indomável.
É o desejo alimentado pela curiosidade que propõe a viagem pessoal. Mas desde a nossa infância alguém nos diz constantemente: atenção com os perigos, é melhor não ires, não fazeres isto ou aquilo. Os riscos surgem sempre da floresta (do nosso inconsciente), que nos descrevem como lugar de todos os perigos e da escuridão. Contudo, a floresta é fabulosa, propõe mil aventuras e nós precisamos do sentido de aventura, sem ele o herói não pode florescer em nós. Não podemos cortar o desejo em nós, não podemos recalcá-lo e apenas imaginar a viagem. Nascemos para a nossa viagem pessoal e temos de descobrir a cada momento o desejo de sentir a viagem e o desejo de intuir o silêncio. É o desejo indomável do qual brote a criação do mundo e os nossos sentidos são os veículos da viagem, não devemos excluir nada da nossa experiência.
É o galo que representa este desejo ligado ao elemento de fogo. O mito de Prometeu é-lhe dedicado e indica que o desejo é transgressão e desobediência mesmo contra os deuses. O fogo que Prometeu vai roubar aos deuses é o desejo indomável, sem ele não há vida. Por outro lado, há uma sageza do desejo que assenta na compaixão, deixando intuir o movimento do desejo para que não sejamos crucificados entre o passado e o futuro. O que intui não é “história de vida” – o desejo em directo é uma experiência que não deixa resíduos, é uma experiência sem apropriação. É na apropriação que matamos a experiência e o sentir. Se não nos apropriamos dela produz-se apenas aprendizagem e não uma memória fantasmática do actor. Deste modo, o eu não acumula. Quando nos apropriamos da experiência, criamos memória, aprisionando e dominando o outro no nosso ódio ou no nosso amor. O herói dos Contos de Fadas é o desejo no ser humano. Para a vida ser viagem de conhecimento temos de pôr as três zonas de sensação ao serviço da consciência intrínseca.
Transmissão directa
O trabalho com a tradição oral permite uma transmissão directa que apoia a luta contra o esquecimento que ameaça permanentemente o trabalho sobre si mesmo. É um trabalho tremendamente volátil, uma vez que as nossas neuroses não permitem acumular informação, que se baseia na percepção em estado de Atenção. A transmissão directa é um sistema de trabalho que desperta no outro algo, uma natureza adormecida, que está em cada um. É esta instância adormecida que pode despertar é, não se pode acrescentar nem tirar nada ao Ser. Há em nós um jogo do Ser e Não-Ser. Ele é “A Bela Adormecida” em nós que desperta através do sentir, da sensação directa associada ao estado de Atenção. Ser é a forma de nos relacionarmos directamente com as coisas, sem julgamento, sem adjectivação, comparação e sem condicionamento em pura experiência do presente – as coisas são como são.
A alteração da Percepção
Quando se fala em iniciação, coloca-se a questão se é possível viver no presente, provocando uma alteração da percepção das coisas. O ser humano tem uma desvantagem em relação a outros ser vivos – não vê as coisas como elas são, não tem uma percepção imediata das coisas, uma instantaneidade da intuição, um fazer imediato. Esta percepção existe em nós, mas está adormecida (as artes marciais tentam despertá-la). Esta percepção permite agir sem intervenção do pensamento. Nós queremos normalmente percepções domesticadas, queremos que nada mude que tudo fique como sempre foi. Queremos que o outro esteja sempre igual às memórias que dele temos, e não percebemos que a percepção se torna uma armadilha quando tem como referência o passado. A imagem fixa que temos das coisas, actualizamos com alguma dificuldade porque recorremos sempre à comparação. Temos de verificar que a percepção pode ter duas cargas diferentes, uma objectiva outra subjectiva. A sensação directa fornece uma percepção objectiva, vemos sempre como se fosse pela primeira vez. Todos os dias, a todos os momentos devíamos entrar neste jogo da percepção pela primeira vez.
Nós tingimos o mundo com a subjectividade do nosso eu e assim não o vemos como ele é. Este eu é uma síntese de milhões de anos de evolução da espécie. Temos de passar da subjectividade do eu de sonho para a objectividade do estado de Atenção. Os hardwares de todos os eus é igual, e as suas experiências também, todos têm o mesmo medo, as mesmas felicidades, o mesmo amor e ódio. O eu funciona como um círculo à nossa volta que nos separa da consciência intrínseca ou seja, do mundo e do outro. O eu é comum a todos nós, as nossas sensações e sentimentos são iguais aos dos outros. O estado de Atenção ou a prática incolor como o chamava Patanjali, no seu tratado sobre o Yoga, leva para além da colorização que cada um dá ao eu, leva para além do eu que construímos como se fosse à parte do resto, como se fosse diferente, mas nós somos o resto.
O eu convergente não é capaz de verdadeiras interacções, só um eu divergente, ou seja, só em estado de Atenção pode haver interacções. Se delimito o eu, delimito a consciência psicológica e estou em consciência pura que não tem limites nem configuração. Qualquer tradição iniciática trabalha a consciência pura, a consciência sem círculo. É neste estado que já não há território que pode ser ameaçado pelo outro e assim cessa qualquer medo. Suprimindo a ilusão territorial que é o eu e a minha chamada história pessoal, com a qual me quero diferenciar dos outros, uma vez que o resto (as emoções e sensações) é igual para todos, vive-se plenamente numa interacção alargada e num novo estado de percepção. Deste modo saímos da aldeola do eu circunscrito e limitado para viver no universo.
A viagem do Louco e a tradição
Os Contos de Fadas remetem sempre para uma primeira vez. Assim por exemplo no conto “O Rapaz que Partiu para Apreender o Medo”. O primeiro elemento do conto é o trajecto do rapaz tido por tolo, que é o Louco do Tarot, o herói que corre mundo. A viagem iniciática é sempre algo de louco nos olhos do mundo. O jovem do conto é um imprestável que não corresponde às expectativas do mundo e que parte numa demanda do medo. Vê que o seu irmão está cheio de medos e ele, ao qual nada faz medo, que conhecer esta emoção. Se o mundo seguia o senso comum, ele não, mesmo se ficasse pobre o resto da sua vida; mas ele ganha um reino, o reino da sua própria consciência intrínseca. Ele passa do círculo do eu e vai para além, conquistando um reino e riquezas inacreditáveis. O génio, um velho de barbas que remata esta história, é o senhor do tempo. O herói descobre que o tempo é o gestor dos medos e negocia o medo com o tempo.
Não é o tempo das coisas que nos faz medo, mas sim, o tempo psicológico. Contudo, o jovem não resolve o problema da pele de galinha que o irmão conheceu e continua a ter inveja dele. Aprende então com a mulher e compreende que o medo é a tensão da comparação, introduzida pelo tempo psicológico. Na comparação envelheço as situações, mato-as. Saturno, o senhor do tempo, é assim também o senhor de todas as comparações. O tolo é simplesmente, vive a realidade sem tempo psicológico, tendo deste modo outra relação com ela. Viver no AGORA significa pensar, sentir, agir num estado sem motivação, sem objectivo que fazem que tenho medo de não conseguir a meta ou depois perder o que alcancei. Ter medo revela-se uma falsa questão, o medo é um tigre de papel que apenas existe na visão do eu.
Há duas maneiras de agir – por motivação ou compulsão ou por auto-conhecimento. A tradição é um património de experiência feita, um pacote que herdamos. Quando a recusamos para insistir na nossa própria demanda, rejeitamos as expectativas e a motivação de acção dos pais ou do meio social. Com ela rejeitamos um sistema de auto-reprodução sem inovação. O tempo herdado é tempo psicológico. Por isso, os artistas tem, em cada geração, romper com o conjunto de tradições para ir à origem, recomeçar a criação, criar de novo. A ruptura com o sistema é sistemática na criação artística.
Nos Contos de Fadas, o auto-conhecimento na sua estrutura arquetípica está a flor da pele, é terapêutico na medida que traz elementos que desfazem o stress psicológico. A sua linguagem dirige-se ao inconsciente. Revela-nos que há dois registos cerebrais – o cérebro que trabalha com uma abordagem de utilidade, que é o cérebro direito intuitivo e criativo, e o outro que trabalha identificando-se com o protagonista. O herói vai pela percepção directa e intuitiva, pelo hemisfério direito.
Este herói em nós é o filho pródigo e a sua demanda. É o tolo em nós, o Louco que parte de uma família comum e chega a uma família exultante, nova. Há em cada um de nós um percurso féerico, uma capacidade de viver a realidade tal qual ela é, não precisamos de alterar nada. A vida faz sentido à partida. O fantástico já cá está, a dimensão mágica e deslumbrante já está em nós, nos apenas esquecemo-nos disso, é o lado adormecido em nós. Em “A Bela Adormecida” é a relação causa – efeito mágica que faz que a princesa encontre o príncipe. Há algo que acontece sempre no presente, como se fosse pela primeira vez, se estivermos disponíveis de momento a momento e é esta a única maneira de viver magicamente. Na criação não existe a segunda vez – “O mestre só fala uma vez”, e a nossa vida é como o mestre. A consciência psicológica cria esta convicção que deve haver uma segunda vez.
O espelho fragmentado
Não nascemos para criar uma história pessoal medíocre que é esquecida uma semana depois da nossa morte. Ninguém se interessa pela nossa vida, uma vida que é muito fragmentada, que não tem remédio como ficção. O iceberg só mostra a ponta que emite sinais fragmentadas, a vida é um espelho despedaçado, não pode reflectir uma imagem coerente. O que custa na morte é que temos apenas estilhaços nos quais vemos a nossa cara. É este o pânico do findar do pequeno círculo do eu. A magia é o caminho do meio, é viver e morrer sem ganho.
Como é que podemos activar o herói em nós? Ele não é o eu construído socialmente, é uma espécie e anti-herói com uma história ilimitada. Há algo em nós que escreve uma história mágica em nós que por vezes aparece em fragmentos nos nossos sonhos, sonhos perturbantes com timbre féerico e uma carga simbólica. É este o herói de iniciação. O eu e herói não podem coexistir. Temos de sentir à partida o que há de mais original e inquietante que transforma o percurso e a vida em algo que é realmente só nosso e que interessa a todos os seres humanos. Não é a nossa história. É a do herói em nós, é a natureza heróica que assume a nossa forma. A história arquetípica que tem para contar é uma história de iniciação, não uma história de vida. ( É esta a história de Sócrates, contada por Platão ou a de Ulisses – uma aventura de herói, e não da personagem.) Há assim um percurso paralelo em nós, um processo de sageza que deixa de fora os eventos da vida, um percurso de auto-descoberta, uma odisseia sempre nova. A aventura iniciática é sempre diferente de todas as outras, ao passo que a história de vida é quase igual em todos os seres humanos.
O Herói Solar
Para o herói solar que está por detrás de todas as reencarnações, estas só interessam se tiverem elementos libertadores. Cada vida no presente é um resumo da história do universo de biliões de anos. O herói é atemporal, transversal ao tempo, um peregrino inquieto e indomável e não se deixa prender numa gaiola. Ele não se envolve nas artimanhas fantasmagóricas do tempo, aprende a vida doutra maneira e tem uma percepção que não se baseia na comparação.
A percepção mágica tem o poder de mutação do indivíduo, um elemento de redenção que a consciência psicológica destrói. Temos de escutar o herói em nós que não acumula experiências e não leva bagagem consigo. Jesus é o paradigma deste herói solar que diz: “Não tenho local onde repousar a minha cabeça.” É um herói sem domicílio terrestre, como aliás todos os avateres, ou seja, representações / incarnações do herói como o Buda ou outros: “Se queres saber quem é o herói, encontra-o em ti mesmo.” Ele está intrinsecamente em cada um de nós e tem uma percepção de sensação directa, uma motivação única de pura consciência-energia individuada, feita indivíduo. Ele não tem história, é ninguém, não tem identidade, não se identifica nem ao passado nem ao eu. Existe enquanto história universal, desejo de expressão e desdobramento de um desejo único – a auto-realização. Não se apodera da vida como experiência, não tem história pessoal, mas uma história de iniciação fabulosa. O herói é impessoal. Nós não podemos servir dois senhores – ou estamos no registo do herói ou no registo do eu. O herói fala dos seres humanos, não de si.
A magia do Real
Qual é o factor de transformação? Ausência absoluta de história pessoal, o discurso é sobre o herói do outro, o único interesse reside na vida do herói do outro. Há uma consciência intrinsecamente generosa que não se apodera de nada. O chamado voto de pobreza significava originalmente isso – a promessa de não se apoderar de nenhuma experiência, e o templo era o lugar do herói para o qual não pode levar nenhuma riqueza deste mundo. ( nos tempos mais recentes Krishnamurti vivia assim). A percepção altera-se profudamente nesta perspectiva, é completamente nova no viver no AGORA. Damo-nos conta que, a cada momento vivido, só podemos escolher entre duas coisas – ou apoderar-nos do momento ou viver o seu encanto sem projecção do passado para que a magia do real não se perder.
A morte será um momento inglório se não for vivida no AGORA. Tornar-se-á então no momento mais importante de uma vida. Nascemos para ser heróis impessoais da nossa vida que tem sempre sentido. Transversalmente, por detrás está o herói num percurso iniciático único, de momento em momento. Na prática é a respiração que nos traz para o momento. Sacrificamos o momento à nossa tranquilidade, projectando-nos no vazio do estado de Atenção:
Energia – consciência
Herói
∞
Sensação directa
a cada momento
∞
Ser
Experiência irrepetível
e única
Estar no momento
sem construção do eu
A presença do Ser configura-nos de maneira diferente, instalando a bem-aventurança da consciência intrínseca e leva à compassividade e à experiência da vida tal como ela é, uma experiência da unidade de todas as coisas.
O florescimento do Ser
O pensamento é então sageza, o sentimento de pura compaixão e sensação da unidade de todas as coisas. eu e o outro somos uma e a mesma coisa. A acção tem uma única motivação – o florescimento do eu à sua maneira. Este florescimento do Ser em nós encontra a sua própria sageza, não se alimenta da sabedoria dos outros. Apaixonar-nos pelo Ser em nós é a paixão de todas as paixões. O resto é teatro de sombras. Para poder descobrir este Ser único é preciso ousar de sair da nossa casa, do eu. O ciclo vital de cada vida serve a isto e a mais nada. É esta a descoberta que o príncipe faz no conto “A Princesa Pele de Burro” quando olha pelo buraco da fechadura, tendo um vislumbre do Ser que está do outro lado, que está em cada um de nós. Este deslumbramento faz nos descobrir a comédia do eu com a sua busca de auto-preenchimento e posse do objecto e do outro que traz logo a seguir o medo de o perder. Só então podemos deixar de ser predador do outro, na nossa constante procura de auto-satisfação. O eu corta logo as relações quando o outro nega de espelhar a nossa imagem. Exigimos do outro constante compensação pessoal e desenvolvemos estratégias de sobrevivência emocional que trazem ressentimento e colocam uma armadura à nossa volta.
No registo do Ser sentimos que iniciamos a viagem e que deixamos tudo de fora que não somos. Viver em estado de Atenção significa permanente disponibilidade e abertura. Tornamo-nos então donos das nossas vidas, criamos a nossa vida. A iniciação é isso mesmo.
V.Q.
Experiência de Unidade Fundamental
Experiência de unidade fundamental narrada por Krishnamurti:
No primeiro dia em que me vi nesse estado, e mais consciente das coisas ao meu redor, tive a primeira experiência extraordinária. Havia um homem consertando a estrada; aquele homem era eu; a picareta era eu; a picareta que ele segurava era eu; as próprias pedras que ele estava quebrando eram uma parte de mim; a tenra relva era o meu ser, e a árvore atrás do homem era eu. Podia sentir e pensar como o homem que consertava a estrada e podia sentir o vento que passava pela árvore e também podia sentir a pequenina formiga na relva. Os pássaros, a poeira e até o barulho eram parte de mim. Naquele momento um carro passou a alguma distância, eu era o motorista, o motor e os pneus; à medida que o carro se distanciava de mim, também eu me distanciava de mim. Eu estava em tudo, ou melhor, tudo estava em mim, o animado e o inanimado, as montanhas, o verme e tudo que respira. Fiquei o dia todo nesse estado feliz.
do livro: Mary Lutyens, Vida e Morte de Krishnamurti, Editora Teosófica
No primeiro dia em que me vi nesse estado, e mais consciente das coisas ao meu redor, tive a primeira experiência extraordinária. Havia um homem consertando a estrada; aquele homem era eu; a picareta era eu; a picareta que ele segurava era eu; as próprias pedras que ele estava quebrando eram uma parte de mim; a tenra relva era o meu ser, e a árvore atrás do homem era eu. Podia sentir e pensar como o homem que consertava a estrada e podia sentir o vento que passava pela árvore e também podia sentir a pequenina formiga na relva. Os pássaros, a poeira e até o barulho eram parte de mim. Naquele momento um carro passou a alguma distância, eu era o motorista, o motor e os pneus; à medida que o carro se distanciava de mim, também eu me distanciava de mim. Eu estava em tudo, ou melhor, tudo estava em mim, o animado e o inanimado, as montanhas, o verme e tudo que respira. Fiquei o dia todo nesse estado feliz.
do livro: Mary Lutyens, Vida e Morte de Krishnamurti, Editora Teosófica
10
I
AS DEZ CAUSAS DE ARREPENDIMENTO
O discípulo que procura a libertação e a omnisciência do Buda deve primeiro meditar sobre estas dez coisas que são causas de arrependimento:
1. Tendo sido dotado de corpo humano, difícil de obter, livre e dotado de numerosos talentos, malbaratar a sua vida seria causa de arrependimento.
2. Tendo sido dotado deste corpo humano, puro, livre e dotado de numerosos talentos, morrer como homem não religioso e cheio das preocupações do mundo seria causa de arrependimento.
3. Esta vida humana no Kali-Yuga (ou idade das trevas) sendo tão breve e incerta, dissipá-la nos empreendimentos e nos projectos deste mundo seria causa de arrependimento.
4. O espírito de cada um procedendo da natureza do espírito original não criado, deixá-lo perder-se e afundar-se no pântano das ilusões deste mundo seria causa de arrependimento.
5. O mestre espiritual, sendo o guia na via, separar-se dele antes de atingir a iluminação seria causa de arrependimento.
6. A fé e os votos religiosos, sendo o veículo que conduz à emancipação, vê-los fracassar pela violência das paixões incontroladas seria causa de arrependimento.
7. A perfeita sabedoria, sendo reconhecida em si-mesma pela graça do mestre espiritual, dissipá-la na selva das contingências deste mundo seria causa de arrependimento.
8. Vender como uma mercadoria a sublime doutrina dos sábios seria causa de arrependimento.
9. Na medida em que todos os seres vivos são nossos parentes benevolentes, sentir aversão por um só dentre eles, e assim renegá-lo ou abandoná-lo, seria causa de arrependimento.
10. A flor da juventude, sendo o período de desenvolvimento do corpo, da palavra e do espírito, desbaratá-la na indiferença vulgar seria causa de arrependimento.
Estas são as dez causas de arrependimento.
II
SEGUEM-SE DEPOIS
AS DEZ EXIGÊNCIAS
1. Tendo estimado as suas próprias capacidades, deve-se adoptar uma linha de conduta segura.
2. A confiança e o zelo são necessários para conseguir executar as ordens de um instrutor religioso.
3. Para evitar enganar-se na escolha de um guru, o discípulo deve conhecer os seus próprios defeitos e virtudes.
4. Uma grande acuidade intelectual e uma fé robusta são indispensáveis para se por de acordo com o espírito do instrutor espiritual.
5. Uma vigilância de cada instante, assim como um espírito vivo e modesto são necessários para preservar o corpo, a palavra e o espírito de qualquer mácula.
6. Uma verdadeira armadura espiritual, assim como um intelecto poderoso, são necessários à realização dos votos do coração.
7. Livrar-se definitivamente dos desejos e doa apegos é necessário para quem entenda libertar-se de qualquer entrave.
8. Para adquirir o duplo mérito (causal e espiritual), resultante de intenções justas, de acções justas e de motivações altruístas, é necessário nunca abrandar os seus esforços.
9. O espírito, banhado de amor e de compaixão, tanto em pensamento como na acção, deve sempre ser posto ao serviço de qualquer ser sensível.
10. Pela escuta, compreensão e sabedoria, deve-se aperceber a natureza de todas as coisas para não se cair no erro de considerar como reais a matéria e os fenômenos.
Estas são as dez exigências.
III
AS DEZ COISAS A REALIZAR
1. Liga-te a um instrutor religioso dotado do poder espiritual e do completo conhecimento.
2. Procura como eremitério uma solidão ímpar e cheia de influências psíquicas benéficas.
3. Procura amigos com crenças e hábitos parecidos com os teus e nos quais possas depositar a tua confiança.
4. Toma atenção aos malefícios da gula e come apenas suficiente comida para te manteres em boa saúde durante o teu período de recolhimento.
5. Estuda com imparcialidade os ensinamentos dos grandes sábios de todas as escolas.
6. Estuda as ciências benéficas da medicina e da astrologia, assim como a arte profunda dos presságios.
7. Adopta o regime e o modo de vida que te manterão de boa saúde.
8. Adopta as práticas de devoção que permitirão o teu desenvolvimento espiritual.
9. Acompanha os discípulos cuja fé é forte, o espírito doce, e que pareçam favorecidos pelo karma na sua busca da sabedoria divina.
10. Conserva sem cessar a tua consciência em vigília, quer seja a caminhar, estando sentado, comendo e a dormir.
Estas são as dez coisas a realizar.
IV
AS DEZ COISAS A EVITAR
1. Evita o guia espiritual cujo coração aspira a ser conhecido e aos bens deste mundo.
2. Evita os amigos e os discípulos que perturbam a paz do teu espírito e a tua progressão espiritual.
3. Evita as residências e os eremitérios onde se encontram muitas pessoas que te importunem e te distraiam.
4. Evita ganhar a tua vida pelo engano e pela fraude.
5. Evita tais actos que lesem o teu espírito e entravem a tua progressão espiritual.
6. Evita os actos frívolos e inconsiderados que te diminuem na estima do outro.
7. Evita os comportamentos e os actos inúteis.
8. Evita dissimular os teus próprios erros e discorrer sobre os dos outros.
9. Evita os hábitos e os alimentos que não convêm à tua saúde.
10. Evita as ligações que possam ser inspiradas pela cupidez.
Estas são as dez coisas a evitar.
V
AS DEZ COISAS A NÃO EVITAR
1. As ideias, que são o irradiar do espírito, não devem ser evitadas.
2. As formas conceptuais, que são a celebração da Realidade, não devem ser evitadas.
3. As paixões obscurecedoras, que permitem lembrar-se da divina sageza (que serve para se libertar delas), não devem ser evitadas (bem utilizadas, elas permitem gozar plenamente a vida e atingir assim a desilusão).
4. A abundância, que é a água e o fermento do progresso espiritual, não deve ser evitada.
5. A doença e as provas, que ensinam a piedade, não devem ser evitadas.
6. Os inimigos e o infortúnio, que podem incitar à vida religiosa, não devem ser evitados.
7. O que vem de si mesmo, sendo um dom divino, não deve ser evitado.
8. A razão, que é o nosso melhor aliado em cada uma das nossas acções, não deve ser evitada.
9. Aqueles exercícios de devoção , físicos e espirituais, se se tiver os meios para os realizar, não devem ser evitados.
10. Não evites o pensamento de ajudar os outros, por mais limitado que possa ser.
Estas são as dez coisas a não evitar.
VI
AS DEZ COISAS A SABER
1. É preciso saber que todos os fenômenos visíveis, sendo ilusórios, são irreais.
2. É preciso saber que o espírito, sendo desprovido de existência independente (separado do espírito universal), é efêmero.
3. É preciso saber que qualquer ideia resulta de um encadeado de causas.
4. É preciso saber que o corpo e a palavra, compostos dos quatro elementos, são transitórios.
5. É preciso saber que os efeitos das acções passadas, das quais procede todo o sofrimento, são inevitáveis.
6. É preciso saber que o sofrimento é um guru, pois que pode convencer cada um da necessidade de uma vida religiosa.
7. É preciso saber que a afeição às coisas deste mundo torna a prosperidade material hostil ao desenvolvimento espiritual.
8. É preciso saber que o infortúnio é igualmente um guru, pois que é um caminho que conduz à doutrina.
9. É preciso saber que nenhuma coisa existente tem existência independente.
10. É preciso saber que todas as coisas são interdependentes.
Estas são as dez coisas a saber.
VII
AS DEZ COISAS A PRATICAR
1. Deve-se adquirir um conhecimento prático da via seguindo-a, e não comportar-se como a multidão que professa a religião mas não a pratica.
2. Deve-se adquirir um conhecimento prático do desprendimento deixando a sua própria pátria e ficando em terra alheia.
3. Depois de ter escolhido um instrutor religioso, abandona a tua vontade própria e segue cegamente os seus ensinamentos.
4. Depois de ter adquirido a disciplina mental pela escuta e pela meditação dos ensinamentos religiosos, não te vanglories desta conquista mas emprega-a para a realização da verdade.
5. Depois que as premissas do conhecimento espiritual se tenham levantado em ti, não o deixes preguiçosamente em pousio mas cultiva-o com uma vigilância de todos os momentos.
6. Depois de ter experimentado a iluminação espiritual, comunica com ela em solidão, e abandona as actividades vulgares deste mundo.
7. Depois de ter adquirido um conhecimento prático das coisas espirituais e conseguido a grande renúncia, não permitas ao teu corpo, à tua palavra ou ao teu espírito que deixem de seguir as regras, mas cumpre os três votos de pobreza, de castidade e de obediência.
8. Se estás decidido a atingir o fim supremo, abandona o teu egoísmo e dedica-te ao serviço do outro.
9. Se estás empenhado na via mística do Mantrayana, não deixes que o teu corpo, a tua palavra ou o teu espírito permaneçam impuros, mas pratica o mandala triplo (do corpo, da palavra e do espírito).
10. Durante o tempo da tua juventude, não freqüentes aqueles que não te possam guiar espiritualmente, mas adquire laboriosamente o conhecimento prático aos pés de um guru instruído e piedoso.
Estas são as dez coisas a praticar.
VIII
AS DEZ COISAS NAS QUAIS É PRECISO PERSEVERAR
1. Os noviços devem perseverar na escuta e na meditação dos ensinamentos religiosos.
2. Se beneficias já de uma experiência espiritual, persevera na meditação e na concentração mental.
3. Persevera na solidão até que o teu espírito tenha sido inteiramente disciplinado pelo yoga.
4. Qualquer que possa ser a tua dificuldade em controlar a corrente dos teus pensamentos, persevera nos esforços para a dominar.
5. Qualquer que seja a intensidade do teu adormecimento de espírito, persevera nos teus esforços para reforçar o teu intelecto ( ou para controlar o teu espírito).
6. Persevera na tua meditação até que alcances a inalterável tranquilidade mental do samadhi (meditação profunda).
7. Uma vez atingido este estado de samadhi, persevera de maneira a prolongar a sua duração e a poder provocar o seu aparecimento voluntário.
8. Quaisquer que sejam os infortúnios de toda a espécie que te assaltem, persevera na paciência do corpo, da palavra e do espírito.
9. Qualquer que possa ser a intensidade de uma afeição, de um desejo ou de uma fraqueza mental, persevera no teu esforço para eliminá-los mal apareçam.
10. Por mais medíocres que sejam em ti a indulgência e a piedade, persevera a dirigir o teu espírito para a perfeição.
Estas são as dez coisas nas quais é preciso perseverar.
IX
AS DEZ INCITAÇÕES
1. Ao reflectir sobre a dificuldade em obter um corpo humano livre e talentoso, possas tu ser incitado a adoptar a vida religiosa.
2. Ao reflectir sobre a morte e sobre o carácter efêmero da vida, possas tu ser incitado a viver piamente.
3. Ao reflectir sobre as conseqüências inevitáveis e irrevocáveis de toda a acção, possas tu ser incitado a evitar o mal e a falta de piedade.
4. Ao reflectir sobre os males da vida no ciclo das existências sucessivas, possas tu ser incitado a procurar a emancipação.
5. Ao reflectir sobre as misérias que sofrem todos os seres sensíveis, possas tu ser incitado a atingir a libertação pela iluminação do espírito.
6. Ao reflectir sobre a perversidade e sobre a natureza ilusória do espírito de todos os seres sensíveis, possas tu ser inciado a escutar e a meditar sobre a doutrina.
7. Ao reflectir sobre a dificuldade em erradicar os conceitos errôneos, possas tu ser incitado a uma meditação constante que triunfe.
8. Ao reflectir sobre a preponderância das más inclinações nesta idade das trevas, possas tu ser incitado a procurar o seu antídoto na doutrina.
9. Ao reflectir sobre a multiplicidade dos infortúnios nesta idade das trevas, possas tu ser incitado a perseverar na tua busca de emancipação.
10. Ao reflectir sobre a inutilidade de delapidar futilmente a tua vida, possas tu ser incitado à diligência no teu percurso sobre a via.
Estas são as dez incitações.
X
OS DEZ ERROS
1. Uma fé fraca e um intelecto forte podem conduzir ao erro da tagarelice.
2. Uma fé forte e um intelecto fraco podem conduzir ao erro do dogmatismo tacanho.
3. Um grande zelo sem instrução religiosa conveniente pode conduzir ao erro de extremos errados ou de seguir vias enganadoras.
4. Meditar sem se ter preparado suficientemente pela escuta e pelo estudo da doutrina pode conduzir ao erro de se perder nas trevas do inconsciente.
5. Sem uma compreensão prática e conveniente da doutrina, pode cair-se no erro da arrogância religiosa.
6. A menos que se treine o espírito para o altruísmo e para a compaixão infinita, pode cair-se no erro de não procurar a libertação senão para si mesmo.
7. A menos que se discipline o espírito pelo conhecimento da sua própria natureza imaterial, pode cair-se no erro de orientar todas actividades seguindo as vias do mundo.
8. A menos que se erradique em si toda a ambição terrena, pode cair-se no erro de se deixar conduzir por motivações materialistas.
9. Ao permitir que vulgares admiradores crédulos se juntem à nossa volta, pode cair-se no erro de se tornar inchado de orgulho mundano.
10. Ao vangloriar-se dos seus conhecimentos e dos seus poderes ocultos, pode cair-se no erro de exibi-los orgulhosamente em cerimónias profanas.
Estes são os dez erros.
XI
AS DEZ SEMELHANÇAS ENGANADORAS
1. O desejo pode ser tomado erroneamente por fé.
2. A afeição pode ser tomada erroneamente pela indulgência e pela compaixão.
3. A cessação da torrente dos pensamentos pode ser tomada erroneamente pela quietude do espírito infinito, que é o verdadeira finalidade.
4. As percepções dos sentidos podem ser tomadas erroneamente pela realização completa.
5. Uma simples visão da realidade pode ser tomada erroneamente pela completa realização.
6. Os que professam exteriormente a religião, mas não a põem em prática, podem ser tomados erroneamente por verdadeiros devotos.
7. Os escravos das suas paixões podem ser tomados erroneamente por mestres do yoga que se libertaram por si mesmos de todas as leis convencionais.
8. Acções praticadas com um interesse pessoal podem ser tomadas erroneamente por acções altruístas.
9. Métodos enganadores podem ser tomados erroneamente por métodos prudentes.
10. Charlatões podem ser tomados erroneamanete por sábios.
Estas são as dez semelhanças enganadoras.
XII
AS DEZ COISAS QUE NÃO ENGANAM
1. Ao libertar-se de toda a ligação e ao ser ordenado bhikshu (monge pedinte) da santa Ordem, depois de ter abandonado a sua residência e adoptado o estado de sem-lar, não há engano.
2. Ao reverenciar o seu mestre espiritual, não há engano.
3. Ao estudar conscienciosamente a doutrina, ao escutar os comentários que ela suscita, ao reflectir sobre eles e ao meditar sobre ela, não há engano.
4. Ao alimentar altas aspirações e ao esforçar-se por uma conduta modesta, não há engano.
5. Ao manter a mente aberta sobre a religião, ao mesmo tempo que se observa escrupulosamente os seus votos monásticos, não há engano.
6. Ao aliar grande inteligência com pequeno orgulho, não há engano.
7. Ao ser rico em conhecimentos religiosos e diligente em meditar sobre eles, não há engano.
8. Ao aliar instrução religiosa de ponta, conhecimento das coisas espirituais e ausência de orgulho, não há engano.
9. Ao passar toda a sua vida em solidão e em meditação, não há engano.
10. Ao dedicar-se, sem consideração por si mesmo, a fazer o bem aos outros, por meio de métodos sábios, não há engano.
Estas são as dez coisas que não enganam.
XIII
OS TREZE MALOGROS MAIS CRUÉIS
1. Se, tendo nascido humano, não se presta nenhuma atenção à santa doutrina, é-se semelhante a um homem que volta de mãos a abanar de uma terra rica de pedras preciosas; e isto é um malogro cruel.
2. Se, depois de ter ultrapassado a entrada da santa Ordem, se volta para uma vida de família, é-se semelhante a uma borboleta nocturna que mergulha na chama de um candeeiro; e isto é um malogro cruel.
3. Viver junto de um sábio e ficar na ignorância, é ser-se semelhante a um homem que morre de sede nas margens de um lago; e isto é um malogro cruel.
4. Conhecer os preceitos morais e não os empregar para curar as paixões que obscurecem, é ser-se semelhante a um homem doente transportando um saco de remédios que nunca utiliza; e isto é um malogro cruel.
5. Pregar a religião e não a praticar, é ser-se semelhante a um papagaio que recita uma oração; e isto é um malogro cruel.
6. Dar como esmolas e como caridade coisas que se tenham obtido por roubo, por pilhagem ou por fraude, é ser-se semelhante ao relâmpago que cai na água; e isto é um malogro cruel.
7. Oferecer às divindades carne que provenha de seres animados que matamos, é como oferecer a uma mãe a carne da sua própria criança; e isto é um malogro cruel.
8. Exercitar a paciência unicamente com fins egoístas e não para fazer o bem aos outros, é ser-se semelhante a um gato que exercita a sua paciência para matar um rato; e isto é um malogro cruel.
9. Executar acções meritórias com o único fim de obter nomeada e louvores neste mundo, é como trocar a pedra mística maravilhosa por uma bola de caganitas de bode; e isto é um malogro cruel.
10. Se depois de muito ouvir a doutrina, a nossa própria natureza ainda está desafinada, é-se semelhante a um médico atacado por uma doença crónica; e isto é um malogro cruel.
11. Possuir a inteligência dos preceitos, permanecendo ignorante das experiências espirituais que decorrem da sua aplicação, é-se ser semelhante a um homem rico que tivesse perdido a chave do seu tesouro; e isto é um malogro cruel.
12. Tentar explicar a outros doutrinas que não se dominam senão de maneira imperfeita, é ser-se semelhante a um cego que conduz outros cegos; e isto é um malogro cruel.
13. Considerar as experiências resultantes da primeira etapa da meditação como as da última etapa, é ser-se semelhante a um homem que toma o cobre por ouro; e isto é um malogro cruel.
Estes são os treze malogros mais cruéis.
XIV
AS QUINZE FRAQUEZAS
1. Um devoto religioso mostra fraqueza se permite que o seu espírito seja perturbado por pensamentos terrenos quando permanece em solidão.
2. Um devoto religioso que dirige um mosteiro mostra fraqueza se procura o seu interesse pessoal em vez do da confraria.
3. Um devoto religioso mostra fraqueza se respeita escrupulosamente a disciplina moral mas não tem controlo moral efectivo.
4. Dá provas de fraqueza aquele que, tendo adoptado a via justa, permanece ligado a sentimentos terrenos de atracção e repulsa.
5. Dá provas de fraqueza aquele que, tendo renunciado a este mundo e aderido à santa Ordem, aspira aí alcançar mérito.
6. Dá provas de fraqueza aquele que, tendo apercebido brevemente a realidade, não consegue perseverar no sadhana (ou meditação yóguica) até ao dealbar da completa iluminação.
7. Dá provas de fraqueza o devoto religioso que entra na via e que não consegue progredir nela.
8. Dá provas de fraqueza aquele que, não tendo outra ocupação senão a devoção religiosa, não consegue libertar-se de comportamentos indignos.
9. Dá provas de fraqueza aquele que, tendo escolhido a vida religiosa, hesita em fechar-se num isolamento rigoroso qundo sabe perfeitamente que o alimento e todas as coisas necessárias lhe serão fornecidas sem que as peça.
10. Um devoto religioso que exibe poderes ocultos praticando exorcismos ou afastando as doenças mostra fraqueza.
11. Um devoto religioso mostra fraqueza se troca virtudes sagradas por alimentos ou dinheiro.
12. Aquele que consagrou a sua vida à religião mostra fraqueza se faz habilmente o elogio de si mesmo denegrindo os outros.
13. Um homem de religião que dá mostras de elevação nas suas prédicas mas não na sua vida, mostra fraqueza.
14. Aquele que professa a religião mas que não pode viver em solidão, na companhia de si mesmo, e que, ainda por cima, não consegue tornar a sua companhia agradável aos outros, mostra fraqueza.
15. O devoto religioso mostra fraqueza se não é indiferente ao conforto assim como às privações.
Estas são as quinze fraquezas.
XV
AS DOZE COISAS INDISPENSÁVEIS
1. É indispensável possuir um intelecto capaz de compreender e de aplicar a doutrina às suas próprias necessidades.
2. Desde o início de uma vida religiosa, é absolutamente indispensável ter a mais profunda aversão pela interminável sucessão de nascimentos e mortes repetidas.
3. Um guia espiritual capaz de te conduzir na via da emancipação é igualmente indispensável.
4. O zelo, a coragem e a invulnerabilidade à tentação são indispensáveis.
5. Uma perseverança sem descanso na neutralização das más acções, realizando boas, e a observância do triplo voto de preservar a castidade do seu corpo, a pureza do seu espírito e o controlo da sua palavra, são indispensáveis.
6. Uma filosofia suficientemente vasta para abarcar o conhecimento na sua totalidade é indispensável.
7. Um método de meditação tal que torne possível concentrar o espírito sobre qualquer que seja o objecto é indispensável.
8. Uma arte de viver que permita utilizar cada actividade do corpo, da palavra e do espírito, como um suporte para a via é indispensável.
9. Um método prático que dê ensinamentos escolhidos em vez de simples palavras é indispensável.
10. Instruções particulares de um guru avisado, que permitam evitar as vias falaciosas, as tentações, as armadilhas e os perigos são indispensáveis.
11. Uma fé indomável, aliada a uma suprema serenidade de espírito é indispensável no momento da morte.
12. Como resultado de por em prática os ensinamentos escolhidos, a aquisição de poderes espirituais capazes de transmutar o corpo, a palavra e o espírito nas suas essências divinas é indispensável.
Estas são as doze coisas indispensáveis.
XVI
AS DEZ MARCAS
DE UM HOMEM SUPERIOR
1. Não ter senão pouco orgulho e inveja é a marca de um homem superior.
2. Não ter senão poucos desejos e satisfazer-se com coisas simples é a marca de um homem superior.
3. Ser desprovido de hipocrisia e de falsidade é a marca de um homem superior.
4. Regular a sua conduta de acordo com a lei da causa e efeito, tão cuidadosamente como se protege a menina dos seus olhos, é a marca de um homem superior.
5. Ser fiel aos seus compromissos e às suas obrigações é a marca de um homem superior.
6. Ser capaz de conservar vivas amizades não deixando de olhar todos os seres com imparcialidade é a marca de um homem superior.
7. Ver com piedade e sem cólera aqueles que vivem no mal é a marca de um homem superior.
8. Permitir aos outros a vitória e tomar para si a derrota é a marca de um homem superior.
9. Diferenciar-se da multidão por cada um dos seus pensamentos e das suas acções é a marca de um homem superior.
10. Cumprir fielmente e sem orgulho os seus votos de castidade e de piedade é a marca de um homem superior.
Estas são as dez marcas de um homem superior. Os seus opostos constituem as dez marcas de um homem inferior.
XVII
AS DEZ COISAS INÚTEIS
1. O nosso corpo, sendo ilusório e transitório, é inútil prestar-lhe uma atenção excessiva.
2. Ao observar que quando morremos devemos partir de mãos a abanar, e que no dia a seguir à nossa morte o nosso corpo é expulso da nossa própria casa, é inútil sofrer e suportar privações tendo em vista a construção de uma residência neste mundo.
3. Ao observar que quando morremos, os nossos descendentes, se não tiverem sido esclarecidos espiritualmente, são incapazes de nos fornecer a mínima assistência, é inútil para nós legar-lhes riquezas temporais, mesmo por amor.
4. Ao observar que quando morremos devemos seguir o nosso caminho sozinhos, sem parentes nem amigos, é inútil consagrar tempo (que devia ser consagrado a alcançar a iluminação) a cuidá-los e a satisfazê-los, ou a multiplicar em seu favor sinais de um afecto transbordante.
5. Ao observar que os nossos próprios descendentes estão submetidos à morte, e que os bens materiais que possamos legar-lhes serão de qualquer maneira, mais dia menos dia, perdidos, é inútil legar-lhes bens deste mundo.
6. Ao observar que quando vem a morte deve abandonar-se até a sua própria residência, é inútil consagrar a sua vida à aquisição das coisas deste mundo.
7. Ao observar que a infidelidade aos votos religiosos tem como efeito conduzir a estados de existência miseráveis, é inútil entrar para a Ordem sem aí viver santamente.
8. Ter escutado e meditado a doutrina sem a ter praticado nem ter adquirido poderes espirituais que nos assistam no momento da morte é inútil.
9. É inútil ter vivido, mesmo durante muito tempo, ao lado de um instrutor espiritual se nos falta humildade ou devoção, sendo-se, consequentemente, incapaz de qualquer desenvolvimento espiritual.
10. Ao observar que todos os fenômenos existentes e aparentes são sempre transitórios, mutantes e instáveis, e mais particularmente que a vida neste mundo não pode dar nem realidade nem ganho permanente, é inútil consagrar-se aos vãos empreendimentos deste mundo em vez de procurar a sabedoria divina.
Estas são as dez coisas inúteis.
XVIII
AS DEZ CONTRARIEDADES QUE SE CRIAM A SI MESMO
1. Fundar uma família sem meios de subsistência é uma contrariedade que se cria a si mesmo, como o faria um idiota ao comer acônito.
2. Viver uma vida francamente má e desviar-se da doutrina é uma contrariedade que se cria a si mesmo, como faria um demente ao saltar de um precipício.
3. Viver na hipocrisia é uma contrariedade que se cria a si mesmo, como faria uma pessoa ao envenenar a sua própria comida.
4. Não ter firmeza de espírito e tentar mesmo assim agir como um chefe de mosteiro é uma contrariedade que se cria a si mesmo, como faria uma velha e fraca mulher ao tentar juntar um rebanho.
5. Consagrar-se inteiramente às suas ambições pessoais e não se esforçar pelo bem de outro é uma contrariedade que se cria a si mesmo, como faria um cego ao aventurar-se no deserto.
6. Lançar-se a tarefas difíceis sem para elas ter capacidade é uma contrariedade que se cria a si mesmo, como faria um homem sem força ao tentar transportar uma pesada carga.
7. Transgredir as mandamentos de Buda, ou do guia espiritual, por orgulho e por presunção, é uma contrariedade que se cria a si mesmo, como faria um rei ao seguir uma política corrupta.
8. Perder o seu tempo a passear por cidades e aldeias em vez de se consagrar à meditação é uma contrariedade que se cria a si mesmo, como faria um esquilo que descesse para o vale em vez de ficar ao abrigo da montanha.
9. Perder-se na procura das coisas do mundo, em vez do desenvolvimento da divina sabedoria é uma contrariedade que se cria a si mesmo, como faria uma águia ao partir uma asa.
10. Rejeitar com insolência ofertas dedicadas ao guia espiritual ou à trindade (Buda, textos sagrados, monges) é uma contrariedade que se cria a si mesmo, como faria uma criança ao engolir carvões ardentes.
Estas são as dez contrariedades que se criam a si mesmo.
XIX
AS DEZ COISAS PELAS QUAIS SE PRATICA O BEM
1. Pratica-se o bem ao abandonar os costumes do mundo e ao consagrar-se à santa doutrina.
2. Pratica-se o bem ao deixar a sua residência e os seus pais e ao ligar-se a um guia espiritual realmente santo.
3. Pratica-se o bem ao renunciar às actividades do mundo e ao consagrar-se às três actividades religiosas – a escuta, a reflexão e a meditação sobre os ensinamentos escolhidos.
4. Pratica-se o bem ao abandonar as suas relações sociais e ao permanecer na solidão.
5. Pratica-se o bem ao renunciar ao desejo de luxo e de bem-estar, e ao suportar privações.
6. Pratica-se o bem ao contentar-se com coisas simples e ao libertar-se da necessidade de posses materiais.
7. Pratica-se o bem ao tomar a resolução – e ao mantê-la firmemente – de não se aproveitar dos outros.
8. Pratica-se o bem ao não desejar mais os prazeres efêmeros desta vida e ao esforçar-se por realizar a felicidade permanente do Nirvana.
9. Pratica-se o bem ao renunciar ao amor pelas coisas materiais e visíveis, que são irreais e efêmeras, e ao atingor o conhecimento da realidade.
10. Pratica-se o bem ao evitar que as três portas do conhecimento, o corpo, a palavra e a mente, não permaneçam espiritualmente indisciplinados, e ao adquirir, por meio do seu uso justo, o duplo mérito (causal e espiritual).
Estas são as dez coisas pelas quais se pratica o bem.
XX
AS DEZ MELHORES COISAS
1. Para um intelecto fraco, a melhor coisa é fiar-se na lei das causas e dos efeitos.
2. Para um intelecto sofrível, a melhor coisa é reconhecer ao mesmo tempo em si e fora de si mesmo, o dinamismo da lei dos opostos.
3. Para um intelecto superior, a melhor coisa é compreender plenamente que o sujeito do conhecimento, o objecto do conhecimento e o acto de conhecer são indissociáveis.
4. Para um intelecto fraco, a melhor meditação consiste numa concentração total do mental sobre um objecto único.
5. Para um intelecto sofrível, a melhor meditação consiste numa concentração ininterrupta do mental sobre os dois conceitos dualistas (a aparência e a realidade de um lado, a consciência e o espírito do outro).
6. Para um intelecto superior, a melhor meditação consiste numa quietude mental, o espírito livre de qualquer processo de pensamento, sabendo que o que medita, o objecto da meditação e o acto de meditar constituem uma unidade indissociável.
7. Para um intelecto fraco, a melhor prática religiosa é viver em estrita conformidade com a lei das causas e dos efeitos.
8. Para um intelecto sofrível, a melhor prática religiosa é olhar todas as coisas objectivas como se fossem imagens de um sonho ou de uma produção mágica.
9. Para um intelecto superior, a melhor prática religiosa é abster-se de qualquer desejo e de qualquer empreendimento deste mundo, ao considerar qualquer coisa terrena como inexistente.
10. Para os três níveis do intelecto, o melhor indicativo do progesso espiritual é a diminuição progressiva das paixões que obscurecem e do egoísmo.
Estas são as dez melhores coisas.
XXI
OS DEZ ERROS GRAVES
1. Para um devoto religioso, seguir um charlatão hipócrita em vez de um guia espiritual que pratica sinceramente a doutrina, é um grave erro.
2. Para um devoto religioso, dedicar-se às vãs ciências deste mundo em vez de procurar os nobres ensinamentos secretos dos grandes sábios, é um grave erro.
3. Para um devoto religioso, fazer planos a longo prazo como se fosse estabelecer uma residência permanente neste mundo, em vez de viver cada dia como o último da sua existência, é um grave erro.
4. Para um devoto religioso, pregar a doutrina à multidão antes de ter verificado a sua veracidade, em vez de a meditar e de avaliar a sua correcção, é um grave erro.
5. Para um devoto religioso, comportar-se como um avaro e juntar riquezas em vez de as consagrar à religião e à caridade, é um grave erro.
6. Para um devoto religioso, entregar à falta de vergonha da devassidão o seu corpo, a sua palavra ou o seu espírito em vez de observar escrupulosamente os seus votos, é um grave erro.
7. Para um devoto religioso, malbaratar a sua vida entre as esperanças e os receios deste mundo, em vez de adquirir a compreensão da realidade, é um grave erro.
8. Para um devoto religioso, tentar corrigir outrem em vez de a si mesmo, é um grave erro.
9. Para um devoto religioso, esforçar-se por obter poderes temporais em vez de cultivar os seus próprios poderes espirituais, é um grave erro.
10. Para um devoto religioso, permanecer ocioso e indiferente em vez de perseverar quando se apresentam todas as circunstâncias propícias ao desenvolvimento espiritual, é um grave erro.
Estes são os dez erros graves.
XXII
AS DEZ COISAS NECESSÁRIAS
1. No início da vida religiosa, é necessário sentir uma aversão tão profunda pela sucessão ininterrupta das mortes e dos nascimentos à qual estão submetidos todos os que não atingiram a iluminação, que se deve desejar fugir dela como um cervo foge à captividade.
2. A segunda coisa necessária é uma perseverança tal que não se arrependa perder a vida na busca da iluminação, do mesmo modo que um agricultor que trabalha os seus campos não se arrepende da sua lavra, mesmo que morra no dia a seguir.
3. A terceira coisa necessária é uma alegria parecida à do homem que alcançou um feito de longo alcance.
4. Uma vez mais, é preciso compreender que, como para um homem gravemente ferido por uma seta, não há um instante a perder.
5. Deve ser-se capaz de fixar o seu espírito num único pensamento, como o faz uma mãe que perdeu o seu filho único.
6. É preciso compreender também que qualquer acção é inútil, do mesmo modo que o boieiro cujo gado foi levado para longe por inimigos, compreende que não pode fazer nada para recuperá-lo.
7. É fundamentalmente exigido desejar a doutrina como um homem esfaimado deseja uma boa comida.
8. É preciso ser-se também confiante na sua capacidade mental como um homem vigoroso na sua capacidade física para conservar uma pedra preciosa que encontrou.
9. Deve desmascarar-se o erro do dualismo como se faria com a falsidade de um mentiroso.
10. Deve ter-se confiança n’ O Que É como sendo o único refúgio, do mesmo modo que um corvo quase sem forças e longe de qualquer terra tem confiança no mastro do navio sobre o qual se repousa.
Estas são as dez coisas necessárias.
XXIII
AS DEZ COISAS SUPÉRFLUAS
1. Depois de ter percebido que o espírito é vazio por natureza, não é mais necessário escutar ou meditar sobre os ensinamentos religiosos.
2. Depois de ter percebido que o espírito é incorruptível por natureza, não é mais necessário procurar a absolvição dos seus pecados.
3. Do mesmo modo, não é mais necessário a absolvição para quem permanece no estado de quietude mental.
4. Para quem atingiu o estado de pureza absoluta, não é mais necessário meditar sobre a via ou sobre os meios de nela avançar, pois atingiu o seu fim.
5. Depois de ter percebido que os conhecimentos são ilusórios e irreais por natureza, não é mais necessário meditar sobre o estado de não-conhecimento.
6. Depois de ter percebido que as paixões que obscurecem são ilusórias e irreais por natureza, não é mais necessário procurar o seu antídoto.
7. Depois de ter percebido que todos os fenômenos são ilusórios, é supérfluo procurar ou rejeitar o que quer que seja.
8. Depois de ter reconhecido que a aflição e o infortúnio são bênçãos, é supérfluo procurar a felicidade.
9. Depois de ter reconhecido que a sua própria consciência é inata por natureza, não é mais necessário praticar a transferência de consciência.
10. Se só o bem do outro é procurado em tudo o que se faz, não é mais necessário procurar nisso algum benefício para si mesmo.
Estas são as dez coisas supérfluas.
XXIV
AS DEZ COISAS
MAIS PRECIOSAS
1. Uma vida humana livre e dotada de numerosos talentos é mais preciosa do que miríades de vidas não-humanas em qualquer um dos seis estádios da existência.
2. Um sábio é mais precioso do que uma multidão de pessoas não-religiosas e preocupadas com os assuntos deste mundo.
3. Uma verdade esotérica é mais preciosa do que inúmeras doutrinas exotéricas.
4. Uma percepção momentânea da sabedoria divina, nascida da meditação, é mais preciosa do que não importa qualquer montão de conhecimentos obtidos pela escuta e pelo estudo dos ensinamentos religiosos.
5. O mais pequeno mérito dedicado ao bem do outro é mais precioso do que não importa qual mérito consagrado ao seu próprio bem.
6. Experimentar ainda que seja por um instante o samadi no qual todos os processos de pensamento estão suspensos é mais precioso do que experimentar sem cessar o samadhi no qual os processos de pensamento ainda estão activos.
7. Gozar um só momento o prazer do Nirvana é mais precioso do que gozar não importa qual acumulação de prazeres sensuais.
8. A mais pequena boa acção desinteressada é mais preciosa do que inúmeras boas acções interesseiras.
9. Renunciar a todas as coisas deste mundo, residência, família, amigos, propriedade, nomeada, longa vida, e mesmo saúde, é mais precioso do que dar incomensuráveis riquezas deste mundo para a caridade.
10. Uma única via consagrada à busca da iluminação é mais preciosa do que todas as vidas de uma eternidade consagrada a empreendimentos deste mundo.
Estas são as dez coisas mais preciosas.
XXV
AS DEZ COISAS EQUIVALENTES
1. Para quem se dedicou sinceramente à vida religiosa, tanto faz abster-se de qualquer actividade do mundo como não.
2. Para quem percebeu a natureza transcendente do espírito, tanto faz praticar a meditação como não.
3. Para quem está livre qualquer ligação às voluptuosidades do mundo, tanto faz praticar o ascetismo como não.
4. Para quem percebeu a realidade, tanto faz permanecer solitariamente numa montanha isolada ou vagabundear por aqui e por ali como um monge pedinte.
5. Para quem atingiu o domínio do seu espírito, tanto faz tomar parte nos prazeres deste mundo como não.
6. Para quem é dotado de uma compaixão universal, tanto faz praticar a meditação solitária como trabalhar pelo bem do outro na sociedade.
7. Para aquele cuja humildade e fé, aliadas ao respeito pelo seu guru, são inabaláveis, tanto faz permanecer com o seu guru como não.
8. Para quem percebe precisamente os ensinamentos que recebeu, tanto faz encontrar a boa como a má sorte.
9. Para quem renunciou à vida do mundo e se ligou firmemente à prática das verdades espirituais, tanto faz respeitar os códigos de conduta convencionais como não.
10. Para quem atingiu a sublime sabedoria, tanto faz exercer como não os poderes milagrosos.
Estas são as dez coisas equivalentes.
XXVI
AS DEZ VIRTUDES
DA SANTA DOUTRINA
1. O facto de que tenham sido trazidos ao conhecimento dos homens os dez actos piedosos, as seis virtudes ilimitadas, os diversos ensinamentos respeitantes à realidade e à perfeição, as quatro nobres verdades, os quatro estádios de meditação profunda, os quatro estados de existência informal e as duas vias místicas de desenvolvimento e de emancipação espirituais, atesta a virtude da santa doutrina.
2. O facto de que no seio do mundo terreno se tenham desenvolvido, entre os homens, príncipes e Brâmanes espiritualmente esclarecidos, assim como os quatro grandes guardiões do horizonte, as seis ordens de divindades dos paraísos sensíveis, as dezassete ordens dos deuses dos mundos das formas e as quatro ordens dos deuses dos mundos informais, atesta a virtude da santa doutrina.
3. O facto de que se tenham levantado neste mundo aqueles que entraram para a via, aqueles que só regressarão uma vez ao nascimento e aqueles que passaram para lá da necessidade de uma existência futura, os santos, os Budas iluminados e os Budas omniscientes, atesta a virtude da santa doutrina.
4. O facto de que existam aqueles que atingiram a iluminação, o facto de que sejam capazes de regressar ao mundo sob a forma de encarnações divinas para trabalharem na libertação do género humano e de todos os vivos até à dissolução do universo físico, atesta a virtude da santa doutrina.
5. O facto de que existam, emanando da universal bondade dos iluminados voluntariamente reincarnados, influências espirituais protectoras que permitem a libertação do homem e todos os seres vivos, atesta a virtude da santa doutrina.
6. O facto de que, mesmo nos estados de existência miseráveis, se possa experimentar momentos de felicidade, pelo simples facto de se terem realizado actos de misericórdia neste mundo humano, atesta a virtude da santa doutrina.
7. O facto de que homens, depois de terem vivido no mal, renunciaram à sua vida materialista e se tornaram santos dignos da veneração do mundo, atesta a virtude da santa doutrina.
8. O facto de que homens cuja sucessão profundamente adversa dos actos os teria condenado a sofrimentos quase eternos depois da sua morte, se voltaram para a via religiosa e atingiram o Nirvana, atesta a virtude da santa doutrina.
9. O facto de que, simplesmente tendo fé na doutrina, ou meditando sobre ela, ou mesmo somente vestindo o hábito do monge pedinte, se torne digno de respeito e de veneração, atesta a virtude da santa doutrina.
10. O facto de que depois de ter abandonado a todos os bens e abraçado a carreira religiosa, depois de ter renunciado ao estado de chefe de família e se ter escondido no eremitério mais retirado, se possa ainda ser procurado e provido de todas as necessidades da vida, atesta a virtude da santa doutrina.
Estas são as dez virtudes da santa doutrina.
XXVII
AS DEZ
EXPRESSÕES METAFÓRICAS
1. Dado não se poder descrever a “verdade fundamental”, que deve no entanto ser percebida na meditação yoguica, a expressão “verdade fundamental” não é senão uma metáfora.
2. Dado não haver nem viagem, nem viajante na “via”, a expressão “via” religiosa não é senão uma metáfora.
3. Dado não haver nenhum testemunho nem nenhuma testemunha do “estado de verdade”, a expressão “estado de verdade” não é senão uma metáfora.
4. Dado não haver nem meditação nem meditante do “estado puro”, a expresão “estado puro” não é senão uma metáfora.
5. Dado não haver nem fruição nem desfrutador do “humor natural”, a expressão “humor natural” não é senão uma metáfora.
6. Dado não haver nem cumprimento dos votos nem guardiões dos votos, estas expressões não são senão metáforas.
7. Dado não haver nem acumulação de méritos nem ninguém para os acumular, a expressão “duplo mérito” não é senão uma metáfora.
8. Dado não haver nem acção nem actor, a expressão “dupla via” não é senão uma metáfora.
9. Dado não haver nem renúncia nem renunciador da vida no mundo, a expressão “vida no mundo” não é senão uma metáfora.
10. Dado não haver nem benefício nem beneficiário das consequências dos actos, a expressão “conseqüência dos actos” não é senão uma metáfora.
Estas são as dez expressões metafóricas.
XXVIII
AS DEZ
GRANDES COMPREENSÕES ALEGRES
1. É uma grande alegria compreender que o espírito de todos os seres sensíveis é indissociável do espírito universal.
2. É uma grande alegria compreender que a realidade fundamental não tem qualidades.
3. É uma grande alegria compreender que no infinito conhecimento da realidade, para lá de todo o pensamento, todas as diferenciações do mundo terreno são inexistentes.
4. É uma grande alegria compreender que no seu espírito original incriado, o espírito não é perturbado por nenhum processo de pensamento.
5. É uma grande alegria compreender que no estado de verdade fundamental, onde o espírito e a matéria são inseparáveis, não existe nem construtor de teorias, nem construções teóricas.
6. É uma grande alegria compreender que no puro corpo espiritual, emanado dele mesmo, não existem nem geração, nem morte, nem transição, nem nenhuma mudança.
7. É uma grande alegria compreender que no divino corpo reencarnado, emanado dele mesmo, não existe nenhum sentimento de dualidade.
8. É uma grande alegria compreender que na essência da lei suprema, a doutrina da alma pessoal se revela sem fundamento.
9. É uma grande alegria compreender que na compaixão divina e ilimitada dos iluminados reencarnados, não existe nenhuma imperfeição, nem nenhuma manifestação de parcialidade.
10. É uma grande alegria compreender que a via para a libertação, que todos os Budas percorreram, está lá sempre, sempre imutável, e sempre aberta aqueles que estão preparados para lá entrar.
Estas são as dez grandes compreensões alegres.
EPÍLOGO
O que precede contem a essência das palavras imaculadas dos grandes Gurus, que eram dotados da sabedoria divina; e da deusa Tara e de outras divindades. Entre estes grandes mestres figurava o glorioso Dipankara, o pai espiritual, assim como os seus sucessores, que foram divinamente mandatados para espalharem a doutrina nesta terra das neves do norte; e os graciosos Gurus da escola Kadampa. Havia também o rei dos yogin, Milarepa, a quem foram legados os ensinamentos do sábio Marpa de Lohbrak e dos outros; e os ilustres santos da nobre terra das Índias, Naropa e Maitripa, cujos esplendores igualam os da lua e do sol; e os discípulos de todos estes.
Aqui acaba A Via Suprema, o Rosário das Pedras Preciosas.
Este tratado foi transcrito por Digom Sönam Rinchen, que conhecia perfeitamente os ensinamentos de Kadampas e dos Chagchenpas.
É correntemente admitido que o grande guru Gampopa (conhecido igualmente sob o nome de Dvagpo-Lharje) redigiu esta obra, e transmitiu-a com a seguinte recomendação: “Eu peço às gerações de devotos futuros que honrarão a minha memória e lastimarão não terem podido encontrar-me pessoalmente que estudem isto, A Via Suprema, O Rosário das Pedras Preciosas, e ainda A Preciosa Jóia de Libertação, entre outros tratados religiosos. O resultado será idêntico aquele de um encontro pessoal comigo.”
Possa este livro irradiar a divina virtude, e possa ser propício.
Bendito seja ele.
AS DEZ CAUSAS DE ARREPENDIMENTO
O discípulo que procura a libertação e a omnisciência do Buda deve primeiro meditar sobre estas dez coisas que são causas de arrependimento:
1. Tendo sido dotado de corpo humano, difícil de obter, livre e dotado de numerosos talentos, malbaratar a sua vida seria causa de arrependimento.
2. Tendo sido dotado deste corpo humano, puro, livre e dotado de numerosos talentos, morrer como homem não religioso e cheio das preocupações do mundo seria causa de arrependimento.
3. Esta vida humana no Kali-Yuga (ou idade das trevas) sendo tão breve e incerta, dissipá-la nos empreendimentos e nos projectos deste mundo seria causa de arrependimento.
4. O espírito de cada um procedendo da natureza do espírito original não criado, deixá-lo perder-se e afundar-se no pântano das ilusões deste mundo seria causa de arrependimento.
5. O mestre espiritual, sendo o guia na via, separar-se dele antes de atingir a iluminação seria causa de arrependimento.
6. A fé e os votos religiosos, sendo o veículo que conduz à emancipação, vê-los fracassar pela violência das paixões incontroladas seria causa de arrependimento.
7. A perfeita sabedoria, sendo reconhecida em si-mesma pela graça do mestre espiritual, dissipá-la na selva das contingências deste mundo seria causa de arrependimento.
8. Vender como uma mercadoria a sublime doutrina dos sábios seria causa de arrependimento.
9. Na medida em que todos os seres vivos são nossos parentes benevolentes, sentir aversão por um só dentre eles, e assim renegá-lo ou abandoná-lo, seria causa de arrependimento.
10. A flor da juventude, sendo o período de desenvolvimento do corpo, da palavra e do espírito, desbaratá-la na indiferença vulgar seria causa de arrependimento.
Estas são as dez causas de arrependimento.
II
SEGUEM-SE DEPOIS
AS DEZ EXIGÊNCIAS
1. Tendo estimado as suas próprias capacidades, deve-se adoptar uma linha de conduta segura.
2. A confiança e o zelo são necessários para conseguir executar as ordens de um instrutor religioso.
3. Para evitar enganar-se na escolha de um guru, o discípulo deve conhecer os seus próprios defeitos e virtudes.
4. Uma grande acuidade intelectual e uma fé robusta são indispensáveis para se por de acordo com o espírito do instrutor espiritual.
5. Uma vigilância de cada instante, assim como um espírito vivo e modesto são necessários para preservar o corpo, a palavra e o espírito de qualquer mácula.
6. Uma verdadeira armadura espiritual, assim como um intelecto poderoso, são necessários à realização dos votos do coração.
7. Livrar-se definitivamente dos desejos e doa apegos é necessário para quem entenda libertar-se de qualquer entrave.
8. Para adquirir o duplo mérito (causal e espiritual), resultante de intenções justas, de acções justas e de motivações altruístas, é necessário nunca abrandar os seus esforços.
9. O espírito, banhado de amor e de compaixão, tanto em pensamento como na acção, deve sempre ser posto ao serviço de qualquer ser sensível.
10. Pela escuta, compreensão e sabedoria, deve-se aperceber a natureza de todas as coisas para não se cair no erro de considerar como reais a matéria e os fenômenos.
Estas são as dez exigências.
III
AS DEZ COISAS A REALIZAR
1. Liga-te a um instrutor religioso dotado do poder espiritual e do completo conhecimento.
2. Procura como eremitério uma solidão ímpar e cheia de influências psíquicas benéficas.
3. Procura amigos com crenças e hábitos parecidos com os teus e nos quais possas depositar a tua confiança.
4. Toma atenção aos malefícios da gula e come apenas suficiente comida para te manteres em boa saúde durante o teu período de recolhimento.
5. Estuda com imparcialidade os ensinamentos dos grandes sábios de todas as escolas.
6. Estuda as ciências benéficas da medicina e da astrologia, assim como a arte profunda dos presságios.
7. Adopta o regime e o modo de vida que te manterão de boa saúde.
8. Adopta as práticas de devoção que permitirão o teu desenvolvimento espiritual.
9. Acompanha os discípulos cuja fé é forte, o espírito doce, e que pareçam favorecidos pelo karma na sua busca da sabedoria divina.
10. Conserva sem cessar a tua consciência em vigília, quer seja a caminhar, estando sentado, comendo e a dormir.
Estas são as dez coisas a realizar.
IV
AS DEZ COISAS A EVITAR
1. Evita o guia espiritual cujo coração aspira a ser conhecido e aos bens deste mundo.
2. Evita os amigos e os discípulos que perturbam a paz do teu espírito e a tua progressão espiritual.
3. Evita as residências e os eremitérios onde se encontram muitas pessoas que te importunem e te distraiam.
4. Evita ganhar a tua vida pelo engano e pela fraude.
5. Evita tais actos que lesem o teu espírito e entravem a tua progressão espiritual.
6. Evita os actos frívolos e inconsiderados que te diminuem na estima do outro.
7. Evita os comportamentos e os actos inúteis.
8. Evita dissimular os teus próprios erros e discorrer sobre os dos outros.
9. Evita os hábitos e os alimentos que não convêm à tua saúde.
10. Evita as ligações que possam ser inspiradas pela cupidez.
Estas são as dez coisas a evitar.
V
AS DEZ COISAS A NÃO EVITAR
1. As ideias, que são o irradiar do espírito, não devem ser evitadas.
2. As formas conceptuais, que são a celebração da Realidade, não devem ser evitadas.
3. As paixões obscurecedoras, que permitem lembrar-se da divina sageza (que serve para se libertar delas), não devem ser evitadas (bem utilizadas, elas permitem gozar plenamente a vida e atingir assim a desilusão).
4. A abundância, que é a água e o fermento do progresso espiritual, não deve ser evitada.
5. A doença e as provas, que ensinam a piedade, não devem ser evitadas.
6. Os inimigos e o infortúnio, que podem incitar à vida religiosa, não devem ser evitados.
7. O que vem de si mesmo, sendo um dom divino, não deve ser evitado.
8. A razão, que é o nosso melhor aliado em cada uma das nossas acções, não deve ser evitada.
9. Aqueles exercícios de devoção , físicos e espirituais, se se tiver os meios para os realizar, não devem ser evitados.
10. Não evites o pensamento de ajudar os outros, por mais limitado que possa ser.
Estas são as dez coisas a não evitar.
VI
AS DEZ COISAS A SABER
1. É preciso saber que todos os fenômenos visíveis, sendo ilusórios, são irreais.
2. É preciso saber que o espírito, sendo desprovido de existência independente (separado do espírito universal), é efêmero.
3. É preciso saber que qualquer ideia resulta de um encadeado de causas.
4. É preciso saber que o corpo e a palavra, compostos dos quatro elementos, são transitórios.
5. É preciso saber que os efeitos das acções passadas, das quais procede todo o sofrimento, são inevitáveis.
6. É preciso saber que o sofrimento é um guru, pois que pode convencer cada um da necessidade de uma vida religiosa.
7. É preciso saber que a afeição às coisas deste mundo torna a prosperidade material hostil ao desenvolvimento espiritual.
8. É preciso saber que o infortúnio é igualmente um guru, pois que é um caminho que conduz à doutrina.
9. É preciso saber que nenhuma coisa existente tem existência independente.
10. É preciso saber que todas as coisas são interdependentes.
Estas são as dez coisas a saber.
VII
AS DEZ COISAS A PRATICAR
1. Deve-se adquirir um conhecimento prático da via seguindo-a, e não comportar-se como a multidão que professa a religião mas não a pratica.
2. Deve-se adquirir um conhecimento prático do desprendimento deixando a sua própria pátria e ficando em terra alheia.
3. Depois de ter escolhido um instrutor religioso, abandona a tua vontade própria e segue cegamente os seus ensinamentos.
4. Depois de ter adquirido a disciplina mental pela escuta e pela meditação dos ensinamentos religiosos, não te vanglories desta conquista mas emprega-a para a realização da verdade.
5. Depois que as premissas do conhecimento espiritual se tenham levantado em ti, não o deixes preguiçosamente em pousio mas cultiva-o com uma vigilância de todos os momentos.
6. Depois de ter experimentado a iluminação espiritual, comunica com ela em solidão, e abandona as actividades vulgares deste mundo.
7. Depois de ter adquirido um conhecimento prático das coisas espirituais e conseguido a grande renúncia, não permitas ao teu corpo, à tua palavra ou ao teu espírito que deixem de seguir as regras, mas cumpre os três votos de pobreza, de castidade e de obediência.
8. Se estás decidido a atingir o fim supremo, abandona o teu egoísmo e dedica-te ao serviço do outro.
9. Se estás empenhado na via mística do Mantrayana, não deixes que o teu corpo, a tua palavra ou o teu espírito permaneçam impuros, mas pratica o mandala triplo (do corpo, da palavra e do espírito).
10. Durante o tempo da tua juventude, não freqüentes aqueles que não te possam guiar espiritualmente, mas adquire laboriosamente o conhecimento prático aos pés de um guru instruído e piedoso.
Estas são as dez coisas a praticar.
VIII
AS DEZ COISAS NAS QUAIS É PRECISO PERSEVERAR
1. Os noviços devem perseverar na escuta e na meditação dos ensinamentos religiosos.
2. Se beneficias já de uma experiência espiritual, persevera na meditação e na concentração mental.
3. Persevera na solidão até que o teu espírito tenha sido inteiramente disciplinado pelo yoga.
4. Qualquer que possa ser a tua dificuldade em controlar a corrente dos teus pensamentos, persevera nos esforços para a dominar.
5. Qualquer que seja a intensidade do teu adormecimento de espírito, persevera nos teus esforços para reforçar o teu intelecto ( ou para controlar o teu espírito).
6. Persevera na tua meditação até que alcances a inalterável tranquilidade mental do samadhi (meditação profunda).
7. Uma vez atingido este estado de samadhi, persevera de maneira a prolongar a sua duração e a poder provocar o seu aparecimento voluntário.
8. Quaisquer que sejam os infortúnios de toda a espécie que te assaltem, persevera na paciência do corpo, da palavra e do espírito.
9. Qualquer que possa ser a intensidade de uma afeição, de um desejo ou de uma fraqueza mental, persevera no teu esforço para eliminá-los mal apareçam.
10. Por mais medíocres que sejam em ti a indulgência e a piedade, persevera a dirigir o teu espírito para a perfeição.
Estas são as dez coisas nas quais é preciso perseverar.
IX
AS DEZ INCITAÇÕES
1. Ao reflectir sobre a dificuldade em obter um corpo humano livre e talentoso, possas tu ser incitado a adoptar a vida religiosa.
2. Ao reflectir sobre a morte e sobre o carácter efêmero da vida, possas tu ser incitado a viver piamente.
3. Ao reflectir sobre as conseqüências inevitáveis e irrevocáveis de toda a acção, possas tu ser incitado a evitar o mal e a falta de piedade.
4. Ao reflectir sobre os males da vida no ciclo das existências sucessivas, possas tu ser incitado a procurar a emancipação.
5. Ao reflectir sobre as misérias que sofrem todos os seres sensíveis, possas tu ser incitado a atingir a libertação pela iluminação do espírito.
6. Ao reflectir sobre a perversidade e sobre a natureza ilusória do espírito de todos os seres sensíveis, possas tu ser inciado a escutar e a meditar sobre a doutrina.
7. Ao reflectir sobre a dificuldade em erradicar os conceitos errôneos, possas tu ser incitado a uma meditação constante que triunfe.
8. Ao reflectir sobre a preponderância das más inclinações nesta idade das trevas, possas tu ser incitado a procurar o seu antídoto na doutrina.
9. Ao reflectir sobre a multiplicidade dos infortúnios nesta idade das trevas, possas tu ser incitado a perseverar na tua busca de emancipação.
10. Ao reflectir sobre a inutilidade de delapidar futilmente a tua vida, possas tu ser incitado à diligência no teu percurso sobre a via.
Estas são as dez incitações.
X
OS DEZ ERROS
1. Uma fé fraca e um intelecto forte podem conduzir ao erro da tagarelice.
2. Uma fé forte e um intelecto fraco podem conduzir ao erro do dogmatismo tacanho.
3. Um grande zelo sem instrução religiosa conveniente pode conduzir ao erro de extremos errados ou de seguir vias enganadoras.
4. Meditar sem se ter preparado suficientemente pela escuta e pelo estudo da doutrina pode conduzir ao erro de se perder nas trevas do inconsciente.
5. Sem uma compreensão prática e conveniente da doutrina, pode cair-se no erro da arrogância religiosa.
6. A menos que se treine o espírito para o altruísmo e para a compaixão infinita, pode cair-se no erro de não procurar a libertação senão para si mesmo.
7. A menos que se discipline o espírito pelo conhecimento da sua própria natureza imaterial, pode cair-se no erro de orientar todas actividades seguindo as vias do mundo.
8. A menos que se erradique em si toda a ambição terrena, pode cair-se no erro de se deixar conduzir por motivações materialistas.
9. Ao permitir que vulgares admiradores crédulos se juntem à nossa volta, pode cair-se no erro de se tornar inchado de orgulho mundano.
10. Ao vangloriar-se dos seus conhecimentos e dos seus poderes ocultos, pode cair-se no erro de exibi-los orgulhosamente em cerimónias profanas.
Estes são os dez erros.
XI
AS DEZ SEMELHANÇAS ENGANADORAS
1. O desejo pode ser tomado erroneamente por fé.
2. A afeição pode ser tomada erroneamente pela indulgência e pela compaixão.
3. A cessação da torrente dos pensamentos pode ser tomada erroneamente pela quietude do espírito infinito, que é o verdadeira finalidade.
4. As percepções dos sentidos podem ser tomadas erroneamente pela realização completa.
5. Uma simples visão da realidade pode ser tomada erroneamente pela completa realização.
6. Os que professam exteriormente a religião, mas não a põem em prática, podem ser tomados erroneamente por verdadeiros devotos.
7. Os escravos das suas paixões podem ser tomados erroneamente por mestres do yoga que se libertaram por si mesmos de todas as leis convencionais.
8. Acções praticadas com um interesse pessoal podem ser tomadas erroneamente por acções altruístas.
9. Métodos enganadores podem ser tomados erroneamente por métodos prudentes.
10. Charlatões podem ser tomados erroneamanete por sábios.
Estas são as dez semelhanças enganadoras.
XII
AS DEZ COISAS QUE NÃO ENGANAM
1. Ao libertar-se de toda a ligação e ao ser ordenado bhikshu (monge pedinte) da santa Ordem, depois de ter abandonado a sua residência e adoptado o estado de sem-lar, não há engano.
2. Ao reverenciar o seu mestre espiritual, não há engano.
3. Ao estudar conscienciosamente a doutrina, ao escutar os comentários que ela suscita, ao reflectir sobre eles e ao meditar sobre ela, não há engano.
4. Ao alimentar altas aspirações e ao esforçar-se por uma conduta modesta, não há engano.
5. Ao manter a mente aberta sobre a religião, ao mesmo tempo que se observa escrupulosamente os seus votos monásticos, não há engano.
6. Ao aliar grande inteligência com pequeno orgulho, não há engano.
7. Ao ser rico em conhecimentos religiosos e diligente em meditar sobre eles, não há engano.
8. Ao aliar instrução religiosa de ponta, conhecimento das coisas espirituais e ausência de orgulho, não há engano.
9. Ao passar toda a sua vida em solidão e em meditação, não há engano.
10. Ao dedicar-se, sem consideração por si mesmo, a fazer o bem aos outros, por meio de métodos sábios, não há engano.
Estas são as dez coisas que não enganam.
XIII
OS TREZE MALOGROS MAIS CRUÉIS
1. Se, tendo nascido humano, não se presta nenhuma atenção à santa doutrina, é-se semelhante a um homem que volta de mãos a abanar de uma terra rica de pedras preciosas; e isto é um malogro cruel.
2. Se, depois de ter ultrapassado a entrada da santa Ordem, se volta para uma vida de família, é-se semelhante a uma borboleta nocturna que mergulha na chama de um candeeiro; e isto é um malogro cruel.
3. Viver junto de um sábio e ficar na ignorância, é ser-se semelhante a um homem que morre de sede nas margens de um lago; e isto é um malogro cruel.
4. Conhecer os preceitos morais e não os empregar para curar as paixões que obscurecem, é ser-se semelhante a um homem doente transportando um saco de remédios que nunca utiliza; e isto é um malogro cruel.
5. Pregar a religião e não a praticar, é ser-se semelhante a um papagaio que recita uma oração; e isto é um malogro cruel.
6. Dar como esmolas e como caridade coisas que se tenham obtido por roubo, por pilhagem ou por fraude, é ser-se semelhante ao relâmpago que cai na água; e isto é um malogro cruel.
7. Oferecer às divindades carne que provenha de seres animados que matamos, é como oferecer a uma mãe a carne da sua própria criança; e isto é um malogro cruel.
8. Exercitar a paciência unicamente com fins egoístas e não para fazer o bem aos outros, é ser-se semelhante a um gato que exercita a sua paciência para matar um rato; e isto é um malogro cruel.
9. Executar acções meritórias com o único fim de obter nomeada e louvores neste mundo, é como trocar a pedra mística maravilhosa por uma bola de caganitas de bode; e isto é um malogro cruel.
10. Se depois de muito ouvir a doutrina, a nossa própria natureza ainda está desafinada, é-se semelhante a um médico atacado por uma doença crónica; e isto é um malogro cruel.
11. Possuir a inteligência dos preceitos, permanecendo ignorante das experiências espirituais que decorrem da sua aplicação, é-se ser semelhante a um homem rico que tivesse perdido a chave do seu tesouro; e isto é um malogro cruel.
12. Tentar explicar a outros doutrinas que não se dominam senão de maneira imperfeita, é ser-se semelhante a um cego que conduz outros cegos; e isto é um malogro cruel.
13. Considerar as experiências resultantes da primeira etapa da meditação como as da última etapa, é ser-se semelhante a um homem que toma o cobre por ouro; e isto é um malogro cruel.
Estes são os treze malogros mais cruéis.
XIV
AS QUINZE FRAQUEZAS
1. Um devoto religioso mostra fraqueza se permite que o seu espírito seja perturbado por pensamentos terrenos quando permanece em solidão.
2. Um devoto religioso que dirige um mosteiro mostra fraqueza se procura o seu interesse pessoal em vez do da confraria.
3. Um devoto religioso mostra fraqueza se respeita escrupulosamente a disciplina moral mas não tem controlo moral efectivo.
4. Dá provas de fraqueza aquele que, tendo adoptado a via justa, permanece ligado a sentimentos terrenos de atracção e repulsa.
5. Dá provas de fraqueza aquele que, tendo renunciado a este mundo e aderido à santa Ordem, aspira aí alcançar mérito.
6. Dá provas de fraqueza aquele que, tendo apercebido brevemente a realidade, não consegue perseverar no sadhana (ou meditação yóguica) até ao dealbar da completa iluminação.
7. Dá provas de fraqueza o devoto religioso que entra na via e que não consegue progredir nela.
8. Dá provas de fraqueza aquele que, não tendo outra ocupação senão a devoção religiosa, não consegue libertar-se de comportamentos indignos.
9. Dá provas de fraqueza aquele que, tendo escolhido a vida religiosa, hesita em fechar-se num isolamento rigoroso qundo sabe perfeitamente que o alimento e todas as coisas necessárias lhe serão fornecidas sem que as peça.
10. Um devoto religioso que exibe poderes ocultos praticando exorcismos ou afastando as doenças mostra fraqueza.
11. Um devoto religioso mostra fraqueza se troca virtudes sagradas por alimentos ou dinheiro.
12. Aquele que consagrou a sua vida à religião mostra fraqueza se faz habilmente o elogio de si mesmo denegrindo os outros.
13. Um homem de religião que dá mostras de elevação nas suas prédicas mas não na sua vida, mostra fraqueza.
14. Aquele que professa a religião mas que não pode viver em solidão, na companhia de si mesmo, e que, ainda por cima, não consegue tornar a sua companhia agradável aos outros, mostra fraqueza.
15. O devoto religioso mostra fraqueza se não é indiferente ao conforto assim como às privações.
Estas são as quinze fraquezas.
XV
AS DOZE COISAS INDISPENSÁVEIS
1. É indispensável possuir um intelecto capaz de compreender e de aplicar a doutrina às suas próprias necessidades.
2. Desde o início de uma vida religiosa, é absolutamente indispensável ter a mais profunda aversão pela interminável sucessão de nascimentos e mortes repetidas.
3. Um guia espiritual capaz de te conduzir na via da emancipação é igualmente indispensável.
4. O zelo, a coragem e a invulnerabilidade à tentação são indispensáveis.
5. Uma perseverança sem descanso na neutralização das más acções, realizando boas, e a observância do triplo voto de preservar a castidade do seu corpo, a pureza do seu espírito e o controlo da sua palavra, são indispensáveis.
6. Uma filosofia suficientemente vasta para abarcar o conhecimento na sua totalidade é indispensável.
7. Um método de meditação tal que torne possível concentrar o espírito sobre qualquer que seja o objecto é indispensável.
8. Uma arte de viver que permita utilizar cada actividade do corpo, da palavra e do espírito, como um suporte para a via é indispensável.
9. Um método prático que dê ensinamentos escolhidos em vez de simples palavras é indispensável.
10. Instruções particulares de um guru avisado, que permitam evitar as vias falaciosas, as tentações, as armadilhas e os perigos são indispensáveis.
11. Uma fé indomável, aliada a uma suprema serenidade de espírito é indispensável no momento da morte.
12. Como resultado de por em prática os ensinamentos escolhidos, a aquisição de poderes espirituais capazes de transmutar o corpo, a palavra e o espírito nas suas essências divinas é indispensável.
Estas são as doze coisas indispensáveis.
XVI
AS DEZ MARCAS
DE UM HOMEM SUPERIOR
1. Não ter senão pouco orgulho e inveja é a marca de um homem superior.
2. Não ter senão poucos desejos e satisfazer-se com coisas simples é a marca de um homem superior.
3. Ser desprovido de hipocrisia e de falsidade é a marca de um homem superior.
4. Regular a sua conduta de acordo com a lei da causa e efeito, tão cuidadosamente como se protege a menina dos seus olhos, é a marca de um homem superior.
5. Ser fiel aos seus compromissos e às suas obrigações é a marca de um homem superior.
6. Ser capaz de conservar vivas amizades não deixando de olhar todos os seres com imparcialidade é a marca de um homem superior.
7. Ver com piedade e sem cólera aqueles que vivem no mal é a marca de um homem superior.
8. Permitir aos outros a vitória e tomar para si a derrota é a marca de um homem superior.
9. Diferenciar-se da multidão por cada um dos seus pensamentos e das suas acções é a marca de um homem superior.
10. Cumprir fielmente e sem orgulho os seus votos de castidade e de piedade é a marca de um homem superior.
Estas são as dez marcas de um homem superior. Os seus opostos constituem as dez marcas de um homem inferior.
XVII
AS DEZ COISAS INÚTEIS
1. O nosso corpo, sendo ilusório e transitório, é inútil prestar-lhe uma atenção excessiva.
2. Ao observar que quando morremos devemos partir de mãos a abanar, e que no dia a seguir à nossa morte o nosso corpo é expulso da nossa própria casa, é inútil sofrer e suportar privações tendo em vista a construção de uma residência neste mundo.
3. Ao observar que quando morremos, os nossos descendentes, se não tiverem sido esclarecidos espiritualmente, são incapazes de nos fornecer a mínima assistência, é inútil para nós legar-lhes riquezas temporais, mesmo por amor.
4. Ao observar que quando morremos devemos seguir o nosso caminho sozinhos, sem parentes nem amigos, é inútil consagrar tempo (que devia ser consagrado a alcançar a iluminação) a cuidá-los e a satisfazê-los, ou a multiplicar em seu favor sinais de um afecto transbordante.
5. Ao observar que os nossos próprios descendentes estão submetidos à morte, e que os bens materiais que possamos legar-lhes serão de qualquer maneira, mais dia menos dia, perdidos, é inútil legar-lhes bens deste mundo.
6. Ao observar que quando vem a morte deve abandonar-se até a sua própria residência, é inútil consagrar a sua vida à aquisição das coisas deste mundo.
7. Ao observar que a infidelidade aos votos religiosos tem como efeito conduzir a estados de existência miseráveis, é inútil entrar para a Ordem sem aí viver santamente.
8. Ter escutado e meditado a doutrina sem a ter praticado nem ter adquirido poderes espirituais que nos assistam no momento da morte é inútil.
9. É inútil ter vivido, mesmo durante muito tempo, ao lado de um instrutor espiritual se nos falta humildade ou devoção, sendo-se, consequentemente, incapaz de qualquer desenvolvimento espiritual.
10. Ao observar que todos os fenômenos existentes e aparentes são sempre transitórios, mutantes e instáveis, e mais particularmente que a vida neste mundo não pode dar nem realidade nem ganho permanente, é inútil consagrar-se aos vãos empreendimentos deste mundo em vez de procurar a sabedoria divina.
Estas são as dez coisas inúteis.
XVIII
AS DEZ CONTRARIEDADES QUE SE CRIAM A SI MESMO
1. Fundar uma família sem meios de subsistência é uma contrariedade que se cria a si mesmo, como o faria um idiota ao comer acônito.
2. Viver uma vida francamente má e desviar-se da doutrina é uma contrariedade que se cria a si mesmo, como faria um demente ao saltar de um precipício.
3. Viver na hipocrisia é uma contrariedade que se cria a si mesmo, como faria uma pessoa ao envenenar a sua própria comida.
4. Não ter firmeza de espírito e tentar mesmo assim agir como um chefe de mosteiro é uma contrariedade que se cria a si mesmo, como faria uma velha e fraca mulher ao tentar juntar um rebanho.
5. Consagrar-se inteiramente às suas ambições pessoais e não se esforçar pelo bem de outro é uma contrariedade que se cria a si mesmo, como faria um cego ao aventurar-se no deserto.
6. Lançar-se a tarefas difíceis sem para elas ter capacidade é uma contrariedade que se cria a si mesmo, como faria um homem sem força ao tentar transportar uma pesada carga.
7. Transgredir as mandamentos de Buda, ou do guia espiritual, por orgulho e por presunção, é uma contrariedade que se cria a si mesmo, como faria um rei ao seguir uma política corrupta.
8. Perder o seu tempo a passear por cidades e aldeias em vez de se consagrar à meditação é uma contrariedade que se cria a si mesmo, como faria um esquilo que descesse para o vale em vez de ficar ao abrigo da montanha.
9. Perder-se na procura das coisas do mundo, em vez do desenvolvimento da divina sabedoria é uma contrariedade que se cria a si mesmo, como faria uma águia ao partir uma asa.
10. Rejeitar com insolência ofertas dedicadas ao guia espiritual ou à trindade (Buda, textos sagrados, monges) é uma contrariedade que se cria a si mesmo, como faria uma criança ao engolir carvões ardentes.
Estas são as dez contrariedades que se criam a si mesmo.
XIX
AS DEZ COISAS PELAS QUAIS SE PRATICA O BEM
1. Pratica-se o bem ao abandonar os costumes do mundo e ao consagrar-se à santa doutrina.
2. Pratica-se o bem ao deixar a sua residência e os seus pais e ao ligar-se a um guia espiritual realmente santo.
3. Pratica-se o bem ao renunciar às actividades do mundo e ao consagrar-se às três actividades religiosas – a escuta, a reflexão e a meditação sobre os ensinamentos escolhidos.
4. Pratica-se o bem ao abandonar as suas relações sociais e ao permanecer na solidão.
5. Pratica-se o bem ao renunciar ao desejo de luxo e de bem-estar, e ao suportar privações.
6. Pratica-se o bem ao contentar-se com coisas simples e ao libertar-se da necessidade de posses materiais.
7. Pratica-se o bem ao tomar a resolução – e ao mantê-la firmemente – de não se aproveitar dos outros.
8. Pratica-se o bem ao não desejar mais os prazeres efêmeros desta vida e ao esforçar-se por realizar a felicidade permanente do Nirvana.
9. Pratica-se o bem ao renunciar ao amor pelas coisas materiais e visíveis, que são irreais e efêmeras, e ao atingor o conhecimento da realidade.
10. Pratica-se o bem ao evitar que as três portas do conhecimento, o corpo, a palavra e a mente, não permaneçam espiritualmente indisciplinados, e ao adquirir, por meio do seu uso justo, o duplo mérito (causal e espiritual).
Estas são as dez coisas pelas quais se pratica o bem.
XX
AS DEZ MELHORES COISAS
1. Para um intelecto fraco, a melhor coisa é fiar-se na lei das causas e dos efeitos.
2. Para um intelecto sofrível, a melhor coisa é reconhecer ao mesmo tempo em si e fora de si mesmo, o dinamismo da lei dos opostos.
3. Para um intelecto superior, a melhor coisa é compreender plenamente que o sujeito do conhecimento, o objecto do conhecimento e o acto de conhecer são indissociáveis.
4. Para um intelecto fraco, a melhor meditação consiste numa concentração total do mental sobre um objecto único.
5. Para um intelecto sofrível, a melhor meditação consiste numa concentração ininterrupta do mental sobre os dois conceitos dualistas (a aparência e a realidade de um lado, a consciência e o espírito do outro).
6. Para um intelecto superior, a melhor meditação consiste numa quietude mental, o espírito livre de qualquer processo de pensamento, sabendo que o que medita, o objecto da meditação e o acto de meditar constituem uma unidade indissociável.
7. Para um intelecto fraco, a melhor prática religiosa é viver em estrita conformidade com a lei das causas e dos efeitos.
8. Para um intelecto sofrível, a melhor prática religiosa é olhar todas as coisas objectivas como se fossem imagens de um sonho ou de uma produção mágica.
9. Para um intelecto superior, a melhor prática religiosa é abster-se de qualquer desejo e de qualquer empreendimento deste mundo, ao considerar qualquer coisa terrena como inexistente.
10. Para os três níveis do intelecto, o melhor indicativo do progesso espiritual é a diminuição progressiva das paixões que obscurecem e do egoísmo.
Estas são as dez melhores coisas.
XXI
OS DEZ ERROS GRAVES
1. Para um devoto religioso, seguir um charlatão hipócrita em vez de um guia espiritual que pratica sinceramente a doutrina, é um grave erro.
2. Para um devoto religioso, dedicar-se às vãs ciências deste mundo em vez de procurar os nobres ensinamentos secretos dos grandes sábios, é um grave erro.
3. Para um devoto religioso, fazer planos a longo prazo como se fosse estabelecer uma residência permanente neste mundo, em vez de viver cada dia como o último da sua existência, é um grave erro.
4. Para um devoto religioso, pregar a doutrina à multidão antes de ter verificado a sua veracidade, em vez de a meditar e de avaliar a sua correcção, é um grave erro.
5. Para um devoto religioso, comportar-se como um avaro e juntar riquezas em vez de as consagrar à religião e à caridade, é um grave erro.
6. Para um devoto religioso, entregar à falta de vergonha da devassidão o seu corpo, a sua palavra ou o seu espírito em vez de observar escrupulosamente os seus votos, é um grave erro.
7. Para um devoto religioso, malbaratar a sua vida entre as esperanças e os receios deste mundo, em vez de adquirir a compreensão da realidade, é um grave erro.
8. Para um devoto religioso, tentar corrigir outrem em vez de a si mesmo, é um grave erro.
9. Para um devoto religioso, esforçar-se por obter poderes temporais em vez de cultivar os seus próprios poderes espirituais, é um grave erro.
10. Para um devoto religioso, permanecer ocioso e indiferente em vez de perseverar quando se apresentam todas as circunstâncias propícias ao desenvolvimento espiritual, é um grave erro.
Estes são os dez erros graves.
XXII
AS DEZ COISAS NECESSÁRIAS
1. No início da vida religiosa, é necessário sentir uma aversão tão profunda pela sucessão ininterrupta das mortes e dos nascimentos à qual estão submetidos todos os que não atingiram a iluminação, que se deve desejar fugir dela como um cervo foge à captividade.
2. A segunda coisa necessária é uma perseverança tal que não se arrependa perder a vida na busca da iluminação, do mesmo modo que um agricultor que trabalha os seus campos não se arrepende da sua lavra, mesmo que morra no dia a seguir.
3. A terceira coisa necessária é uma alegria parecida à do homem que alcançou um feito de longo alcance.
4. Uma vez mais, é preciso compreender que, como para um homem gravemente ferido por uma seta, não há um instante a perder.
5. Deve ser-se capaz de fixar o seu espírito num único pensamento, como o faz uma mãe que perdeu o seu filho único.
6. É preciso compreender também que qualquer acção é inútil, do mesmo modo que o boieiro cujo gado foi levado para longe por inimigos, compreende que não pode fazer nada para recuperá-lo.
7. É fundamentalmente exigido desejar a doutrina como um homem esfaimado deseja uma boa comida.
8. É preciso ser-se também confiante na sua capacidade mental como um homem vigoroso na sua capacidade física para conservar uma pedra preciosa que encontrou.
9. Deve desmascarar-se o erro do dualismo como se faria com a falsidade de um mentiroso.
10. Deve ter-se confiança n’ O Que É como sendo o único refúgio, do mesmo modo que um corvo quase sem forças e longe de qualquer terra tem confiança no mastro do navio sobre o qual se repousa.
Estas são as dez coisas necessárias.
XXIII
AS DEZ COISAS SUPÉRFLUAS
1. Depois de ter percebido que o espírito é vazio por natureza, não é mais necessário escutar ou meditar sobre os ensinamentos religiosos.
2. Depois de ter percebido que o espírito é incorruptível por natureza, não é mais necessário procurar a absolvição dos seus pecados.
3. Do mesmo modo, não é mais necessário a absolvição para quem permanece no estado de quietude mental.
4. Para quem atingiu o estado de pureza absoluta, não é mais necessário meditar sobre a via ou sobre os meios de nela avançar, pois atingiu o seu fim.
5. Depois de ter percebido que os conhecimentos são ilusórios e irreais por natureza, não é mais necessário meditar sobre o estado de não-conhecimento.
6. Depois de ter percebido que as paixões que obscurecem são ilusórias e irreais por natureza, não é mais necessário procurar o seu antídoto.
7. Depois de ter percebido que todos os fenômenos são ilusórios, é supérfluo procurar ou rejeitar o que quer que seja.
8. Depois de ter reconhecido que a aflição e o infortúnio são bênçãos, é supérfluo procurar a felicidade.
9. Depois de ter reconhecido que a sua própria consciência é inata por natureza, não é mais necessário praticar a transferência de consciência.
10. Se só o bem do outro é procurado em tudo o que se faz, não é mais necessário procurar nisso algum benefício para si mesmo.
Estas são as dez coisas supérfluas.
XXIV
AS DEZ COISAS
MAIS PRECIOSAS
1. Uma vida humana livre e dotada de numerosos talentos é mais preciosa do que miríades de vidas não-humanas em qualquer um dos seis estádios da existência.
2. Um sábio é mais precioso do que uma multidão de pessoas não-religiosas e preocupadas com os assuntos deste mundo.
3. Uma verdade esotérica é mais preciosa do que inúmeras doutrinas exotéricas.
4. Uma percepção momentânea da sabedoria divina, nascida da meditação, é mais preciosa do que não importa qualquer montão de conhecimentos obtidos pela escuta e pelo estudo dos ensinamentos religiosos.
5. O mais pequeno mérito dedicado ao bem do outro é mais precioso do que não importa qual mérito consagrado ao seu próprio bem.
6. Experimentar ainda que seja por um instante o samadi no qual todos os processos de pensamento estão suspensos é mais precioso do que experimentar sem cessar o samadhi no qual os processos de pensamento ainda estão activos.
7. Gozar um só momento o prazer do Nirvana é mais precioso do que gozar não importa qual acumulação de prazeres sensuais.
8. A mais pequena boa acção desinteressada é mais preciosa do que inúmeras boas acções interesseiras.
9. Renunciar a todas as coisas deste mundo, residência, família, amigos, propriedade, nomeada, longa vida, e mesmo saúde, é mais precioso do que dar incomensuráveis riquezas deste mundo para a caridade.
10. Uma única via consagrada à busca da iluminação é mais preciosa do que todas as vidas de uma eternidade consagrada a empreendimentos deste mundo.
Estas são as dez coisas mais preciosas.
XXV
AS DEZ COISAS EQUIVALENTES
1. Para quem se dedicou sinceramente à vida religiosa, tanto faz abster-se de qualquer actividade do mundo como não.
2. Para quem percebeu a natureza transcendente do espírito, tanto faz praticar a meditação como não.
3. Para quem está livre qualquer ligação às voluptuosidades do mundo, tanto faz praticar o ascetismo como não.
4. Para quem percebeu a realidade, tanto faz permanecer solitariamente numa montanha isolada ou vagabundear por aqui e por ali como um monge pedinte.
5. Para quem atingiu o domínio do seu espírito, tanto faz tomar parte nos prazeres deste mundo como não.
6. Para quem é dotado de uma compaixão universal, tanto faz praticar a meditação solitária como trabalhar pelo bem do outro na sociedade.
7. Para aquele cuja humildade e fé, aliadas ao respeito pelo seu guru, são inabaláveis, tanto faz permanecer com o seu guru como não.
8. Para quem percebe precisamente os ensinamentos que recebeu, tanto faz encontrar a boa como a má sorte.
9. Para quem renunciou à vida do mundo e se ligou firmemente à prática das verdades espirituais, tanto faz respeitar os códigos de conduta convencionais como não.
10. Para quem atingiu a sublime sabedoria, tanto faz exercer como não os poderes milagrosos.
Estas são as dez coisas equivalentes.
XXVI
AS DEZ VIRTUDES
DA SANTA DOUTRINA
1. O facto de que tenham sido trazidos ao conhecimento dos homens os dez actos piedosos, as seis virtudes ilimitadas, os diversos ensinamentos respeitantes à realidade e à perfeição, as quatro nobres verdades, os quatro estádios de meditação profunda, os quatro estados de existência informal e as duas vias místicas de desenvolvimento e de emancipação espirituais, atesta a virtude da santa doutrina.
2. O facto de que no seio do mundo terreno se tenham desenvolvido, entre os homens, príncipes e Brâmanes espiritualmente esclarecidos, assim como os quatro grandes guardiões do horizonte, as seis ordens de divindades dos paraísos sensíveis, as dezassete ordens dos deuses dos mundos das formas e as quatro ordens dos deuses dos mundos informais, atesta a virtude da santa doutrina.
3. O facto de que se tenham levantado neste mundo aqueles que entraram para a via, aqueles que só regressarão uma vez ao nascimento e aqueles que passaram para lá da necessidade de uma existência futura, os santos, os Budas iluminados e os Budas omniscientes, atesta a virtude da santa doutrina.
4. O facto de que existam aqueles que atingiram a iluminação, o facto de que sejam capazes de regressar ao mundo sob a forma de encarnações divinas para trabalharem na libertação do género humano e de todos os vivos até à dissolução do universo físico, atesta a virtude da santa doutrina.
5. O facto de que existam, emanando da universal bondade dos iluminados voluntariamente reincarnados, influências espirituais protectoras que permitem a libertação do homem e todos os seres vivos, atesta a virtude da santa doutrina.
6. O facto de que, mesmo nos estados de existência miseráveis, se possa experimentar momentos de felicidade, pelo simples facto de se terem realizado actos de misericórdia neste mundo humano, atesta a virtude da santa doutrina.
7. O facto de que homens, depois de terem vivido no mal, renunciaram à sua vida materialista e se tornaram santos dignos da veneração do mundo, atesta a virtude da santa doutrina.
8. O facto de que homens cuja sucessão profundamente adversa dos actos os teria condenado a sofrimentos quase eternos depois da sua morte, se voltaram para a via religiosa e atingiram o Nirvana, atesta a virtude da santa doutrina.
9. O facto de que, simplesmente tendo fé na doutrina, ou meditando sobre ela, ou mesmo somente vestindo o hábito do monge pedinte, se torne digno de respeito e de veneração, atesta a virtude da santa doutrina.
10. O facto de que depois de ter abandonado a todos os bens e abraçado a carreira religiosa, depois de ter renunciado ao estado de chefe de família e se ter escondido no eremitério mais retirado, se possa ainda ser procurado e provido de todas as necessidades da vida, atesta a virtude da santa doutrina.
Estas são as dez virtudes da santa doutrina.
XXVII
AS DEZ
EXPRESSÕES METAFÓRICAS
1. Dado não se poder descrever a “verdade fundamental”, que deve no entanto ser percebida na meditação yoguica, a expressão “verdade fundamental” não é senão uma metáfora.
2. Dado não haver nem viagem, nem viajante na “via”, a expressão “via” religiosa não é senão uma metáfora.
3. Dado não haver nenhum testemunho nem nenhuma testemunha do “estado de verdade”, a expressão “estado de verdade” não é senão uma metáfora.
4. Dado não haver nem meditação nem meditante do “estado puro”, a expresão “estado puro” não é senão uma metáfora.
5. Dado não haver nem fruição nem desfrutador do “humor natural”, a expressão “humor natural” não é senão uma metáfora.
6. Dado não haver nem cumprimento dos votos nem guardiões dos votos, estas expressões não são senão metáforas.
7. Dado não haver nem acumulação de méritos nem ninguém para os acumular, a expressão “duplo mérito” não é senão uma metáfora.
8. Dado não haver nem acção nem actor, a expressão “dupla via” não é senão uma metáfora.
9. Dado não haver nem renúncia nem renunciador da vida no mundo, a expressão “vida no mundo” não é senão uma metáfora.
10. Dado não haver nem benefício nem beneficiário das consequências dos actos, a expressão “conseqüência dos actos” não é senão uma metáfora.
Estas são as dez expressões metafóricas.
XXVIII
AS DEZ
GRANDES COMPREENSÕES ALEGRES
1. É uma grande alegria compreender que o espírito de todos os seres sensíveis é indissociável do espírito universal.
2. É uma grande alegria compreender que a realidade fundamental não tem qualidades.
3. É uma grande alegria compreender que no infinito conhecimento da realidade, para lá de todo o pensamento, todas as diferenciações do mundo terreno são inexistentes.
4. É uma grande alegria compreender que no seu espírito original incriado, o espírito não é perturbado por nenhum processo de pensamento.
5. É uma grande alegria compreender que no estado de verdade fundamental, onde o espírito e a matéria são inseparáveis, não existe nem construtor de teorias, nem construções teóricas.
6. É uma grande alegria compreender que no puro corpo espiritual, emanado dele mesmo, não existem nem geração, nem morte, nem transição, nem nenhuma mudança.
7. É uma grande alegria compreender que no divino corpo reencarnado, emanado dele mesmo, não existe nenhum sentimento de dualidade.
8. É uma grande alegria compreender que na essência da lei suprema, a doutrina da alma pessoal se revela sem fundamento.
9. É uma grande alegria compreender que na compaixão divina e ilimitada dos iluminados reencarnados, não existe nenhuma imperfeição, nem nenhuma manifestação de parcialidade.
10. É uma grande alegria compreender que a via para a libertação, que todos os Budas percorreram, está lá sempre, sempre imutável, e sempre aberta aqueles que estão preparados para lá entrar.
Estas são as dez grandes compreensões alegres.
EPÍLOGO
O que precede contem a essência das palavras imaculadas dos grandes Gurus, que eram dotados da sabedoria divina; e da deusa Tara e de outras divindades. Entre estes grandes mestres figurava o glorioso Dipankara, o pai espiritual, assim como os seus sucessores, que foram divinamente mandatados para espalharem a doutrina nesta terra das neves do norte; e os graciosos Gurus da escola Kadampa. Havia também o rei dos yogin, Milarepa, a quem foram legados os ensinamentos do sábio Marpa de Lohbrak e dos outros; e os ilustres santos da nobre terra das Índias, Naropa e Maitripa, cujos esplendores igualam os da lua e do sol; e os discípulos de todos estes.
Aqui acaba A Via Suprema, o Rosário das Pedras Preciosas.
Este tratado foi transcrito por Digom Sönam Rinchen, que conhecia perfeitamente os ensinamentos de Kadampas e dos Chagchenpas.
É correntemente admitido que o grande guru Gampopa (conhecido igualmente sob o nome de Dvagpo-Lharje) redigiu esta obra, e transmitiu-a com a seguinte recomendação: “Eu peço às gerações de devotos futuros que honrarão a minha memória e lastimarão não terem podido encontrar-me pessoalmente que estudem isto, A Via Suprema, O Rosário das Pedras Preciosas, e ainda A Preciosa Jóia de Libertação, entre outros tratados religiosos. O resultado será idêntico aquele de um encontro pessoal comigo.”
Possa este livro irradiar a divina virtude, e possa ser propício.
Bendito seja ele.
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